Projeto Florestania não deixa seguidores no Acre
* Ecio Rodrigues
A constrangedora derrocada eleitoral, em 2018, do grupo político
que se beneficiou dos ideais do Projeto Florestania, foi tamanha que de lá prá
cá ninguém se aventurou a questionar o perigoso modelo de economia representado
pela pecuária extensiva.
Entretanto, deixar os ideais do Projeto Florestania esquecido para
sempre pode ser um equívoco imperdoável para entender o passado e se preparar
para o futuro dos ciclos econômicos no Acre. Isto é, o debate é inevitável.
É bem provável que tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no
caso desse incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única
mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.
No todo não existe mais de cinco especialistas, órfãos do
Florestania, que ainda continuam pensando em seu cotidiano nas evidencias que
demonstram a superioridade do modelo de desenvolvimento baseado na
biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária
extensiva no Acre.
Na verdade, a constatação sobre os limites da pecuária extensiva e
do potencial da biodiversidade florestal foi ressaltada com bastante produção técnica
e científica publicada nas duas décadas finais do século passado, bem antes de
1999, ano em que o Projeto Florestania foi alçado à condição de Projeto de
Governo.
Reunidas na tese da saída
pela floresta essas publicações se voltaram à compreensão dos ciclos
econômicos no Acre, em especial os ciclos florestais das drogas do sertão, da
borracha e da madeira, para conceber um modelo de desenvolvimento
conservacionista e alternativo ao desmatamento necessário à expansão da
pecuária extensiva.
Naquela época, bem diferente dos não mais que cinco órfãos de
agora, um contingente expressivo de pesquisadores e técnicos de excelente
formação atuavam na Funtac, Embrapa e num variado leque de organizações do
terceiro setor detalhando com rigor a vocação produtiva natural representada
pela saída pela floresta diante da
realidade agronômica e florestal do Acre.
Embora
pareça distante ou perdido no tempo, somente para fornecer uma ideia mais clara
daquele momento histórico e sua importância para o desenvolvimento
estadual, foi ainda em 1990 que foram criadas no Acre as duas primeiras
unidades de conservação da Amazônia chamadas de Reserva Extrativista.
Não por acaso a denominação Reserva Extrativista possui forte razão
técnica o que permitiria, a partir da aplicação de alguns indicadores precisos,
enquadrar ou caracterizar uma determinada área coberta por floresta nesse tipo
especial de regularização fundiária.
Tendo por primeira condição a existência de uma extensa área ainda
coberta por floresta nativa, seria possível manter a biodiversidade florestal
como reserva estratégica para o futuro.
Ao tempo em que uma vez comprovada a primeira condição de reserva
o modo extrativista de produção, depois de reconhecido sucesso na geração
de riqueza durante os ciclos econômicos da extração de borracha e da coleta de castanha-da-Amazônia,
possibilitaria a obtenção de renda conservando a reserva estratégica de
biodiversidade florestal.
Um conceito complexo e que avançou graças a publicação de muitas
pesquisas oriundas do esforço de um considerável contingente de especialistas e,
por suposto, grande mobilização social em especial após o sacrifício de uma
liderança sindical cultuada mundo afora, Chico Mendes.
A despeito de incorporar o arcabouço teórico produzido por uma
equipe enorme de profissionais com bastante domínio sobre o conceito da saída pela floresta, o Projeto
Florestania deixou de formar seus próprios pesquisadores e estudiosos com
especialização em política pública de modo a se viabilizar enquanto Projeto de
Governo e quiçá de Estado.
Afinal, não seria com não mais que cinco órfãos que o Florestania
motivaria a academia, cientistas e técnicos em sua formulação para o futuro.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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