Projeto Florestania não deixa referencia teórica no Acre

 * Ecio Rodrigues

Tal como quase tudo do que acontece em geral na Amazônia e em particular no Acre, o Florestania, um Projeto de Governo que orientou a gestão pública no Acre durante as duas primeiras décadas desse século, caiu no esquecimento sem deixar referencia teórica nem seguidores.

Todavia, como sempre também há esperança.

Talvez tenha sobrado alguns poucos órfãos, como no caso do incansável autor, que ainda se arriscam na defesa da saída pela floresta como única, é única mesmo, alternativa para o desenvolvimento econômico do Acre.

 Entretanto, é bem provável que não haja mais de cinco especialistas, órfãos do Florestania, que ainda produzem evidencias acerca da superioridade do modelo econômico de desenvolvimento baseado na biodiversidade florestal quando comparada á expansão e consolidação da pecuária extensiva no Acre, a despeito de todos se ressentirem da reduzida produção teórica.

Ocorre que a grande maioria das pesquisas, que incluem dissertações de mestrado e teses de doutorado, confrontando os dois modelos de ocupação produtiva (biodiversidade florestal X pecuária extensiva) foi publicada em um período bem específico, no final do século passado, e trataram de temas igualmente específicos, a criação de unidades de conservação, por exemplo.

Em uma análise um tanto rápida não é difícil perceber que mais de 80% das publicações com avaliações comparativas sobre os impactos econômicos e ambientais entre os dois modelos de desenvolvimento datam do período que vai de 1985 até o final da década seguinte, com alguns raros e excepcionais estudos publicados na virada do século.

O que importa é que, novamente em sua imensa maioria, os estudos e relatórios técnicos foram realizados com incontestável apoio do Ministério do Meio Ambiente, que, sobretudo durante os dois governos FHC, não poupou esforço e vontade para aportar recursos financeiros de maneira a demonstrar a cabal diferença na dimensão dos estragos causados nos ecossistemas, em especial devido ao desmatamento das florestas e alteração da vazão dos rios, pela pecuária extensiva e, por outro lado, o potencial conservacionista da saída pela floresta.

Foi nesse período que várias instituições estatais, incluindo a reconhecida Embrapa, em conjunto com expressivo número de organizações não governamentais, conceberam procedimentos técnicos para o que se denominou de manejo florestal de uso múltiplo.

Tratava-se em rápida síntese, da possibilidade de extrair da biodiversidade florestal uma variada cesta de produtos, madeira nobre das árvores inclusive, que adicionados à prestação de serviços ecológicos, relacionados em especial a oferta de água e ao mercado de carbono, forneceriam renda total mais elevada e de forma permanente que o limitado ganho por hectare obtido com a perigosa prática da pecuária extensiva.

Não à toa, outro importante legado do Acre para a discussão sobre o modelo de desenvolvimento amazônico mais adequado a sua realidade ecossistêmica, ou, no dizer dos economistas, de melhor vantagem comparativa, também surgiu e ganhou força nesse mesmo período.

O conceito de Reserva Extrativista foi detalhado em diversas publicações possuindo um acervo notável de produção teórica (acadêmica, de pesquisas cientificas e relatórios técnicos) que, de maneira direta ou indireta, foi capturado pelo Projeto Florestania como se uma coisa tivesse ligação direta com a outra.

Por óbvio que não!

Uma coisa é uma demanda vinda da sociedade, ser transformada em política pública ao prover regularização fundiária para as colocações de muitos produtores extrativistas, outra coisa, bem diferente, seria transformar a saída pela floresta, que tinha na Reserva Extrativista sua principal referência teórica, em Projeto de Governo com perspectiva de se tornar de Estado.

Um tema que, infelizmente, carece de produção teórica e, ao que parece e tudo indica, perdeu seu momento histórico, mas que, em contrapartida, jamais deverá ser esquecido pelos acreanos, dada sua importância nem tanto pelo passado, mas para o futuro do Acre.

Não pode por isso mesmo, ser deixado aos cuidados dos não mais que cinco órfãos do Florestania no Acre.

 

*Engenheiro Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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