Fim do Florestania no Acre: Aliciamento eleitoral não evitou derrocada
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
* Ecio Rodrigues
Quando
uma ou várias empresas que fazem parte de um mesmo setor produtivo se instalam
em uma cidade ou região, empregos e riqueza surgem em função daquele tipo
específico de atividade econômica.
Um
exemplo fácil de compreender pode ser visualizado no município de Três Lagoas
no Mato Grosso do Sul. Ali, um conjunto de indústrias produtoras de papel e
celulose formou o mais importante Cluster Florestal (no caso, com cultivo de
eucalipto) do país.
Chamada
de estratégia de desenvolvimento regional, governos de partidos políticos
variados se revezam no poder local, sempre mantendo a estratégia de longo prazo
para o desenvolvimento da região com base nas floretas plantadas.
No
geral, Mato Grosso do Sul possui um cardápio variado de opções produtivas
distribuídas em seu território, com também várias estratégias de
desenvolvimento, ficando a porção nordeste, que engloba uma extensa região
formada por mais de vinte cidades incluindo Três Lagoas, adotando a estratégia
de desenvolvimento com base no setor florestal.
Situação
bem distinta do Acre, aonde apenas dois projetos do setor primário da economia vem,
ao longo de sua história, disputando o uso do solo e a ocupação produtiva do
meio rural das cidades.
Se do
final do século dezenove, por volta de 1890, até a segunda guerra mundial a
produção de borracha serviu como atrativo de investimentos públicos e privados,
internos e externos, após a década de 1970 foi a pecuária extensiva que
apresentou lucratividade para despertar o interesse de investidores.
Questionando
a hegemonia produtiva da criação extensiva de gado, que demanda de maneira
permanente, todos os anos, o desmatamento de novas terras para cultivo de
capim, algumas organizações conceberam a estratégia de desenvolvimento
conhecida por saída pela floresta
que uniu à borracha, uma lista enorme de outros produtos da biodiversidade
florestal do Acre.
Depois
da regularização fundiária de mais de dois milhões de hectares de Reservas
Extrativistas o sucesso da estratégia da saída
pela floresta foi alçada à condição de projeto de governo com a
denominação, na vitória eleitoral em 1998, de Projeto Florestania.
De
fácil compreensão e prometendo criar riqueza com desmatamento zero os líderes
políticos associados ao Projeto Florestania governaram o Acre por 20 anos, de
1999 a 2018, até as constrangedoras derrotas eleitorais que demarcou o retorno
à estratégia de desenvolvimento da pecuária extensiva.
Hoje,
em 2025, ninguém teria coragem de afirmar que a saída pela floresta, seja com a denominação de Florestania ou outra
qualquer, se transformará em Projeto de Governo e na estratégia de
desenvolvimento do Acre nos próximos 20 anos.
Por
outro lado, aperta a cada ano o cerco político nacional e internacional pelo desmatamento zero, o mercado de carbono
(voluntário, regulado ou jurisdicional) dá seus primeiros e concretos passos
para efetiva institucionalização, em 2030 se encerra o prazo do Acordo de Paris
e a COP30, que acontecerá em Belém em novembro próximo, pode ser o divisor de
água esperado para a Amazônia e o Acre debater e incentivar a saída pela floresta.
Há,
por sinal, muitos outros eventos, considerados de pequena e grande repercussão
com impacto na agenda política, que vão determinar posturas diferenciadas e contribuir
para uma decisão de maior robustez sobre as duas estratégias de desenvolvimento
que podem ser adotadas para o Acre.
Resumindo,
a disputa por terras entre a estratégia saída
pela floresta e pecuária extensiva no Acre, está bem longe de terminar.
Afinal,
a capacidade limitada da pecuária extensiva para prover o crescimento econômico
e a melhoria do IDH que a sociedade acreana requer foi diagnosticada em vários
estudos e na realidade objetiva dos últimos 30 anos.
De
outra banda, faltou líder político para o tamanho do desafio imposto pelo
Projeto Florestania que, no final das contas, não recebeu a prioridade e o
investimento suficiente da política pública que permita concluir sobre seu
fracasso enquanto estratégia de desenvolvimento, a despeito da inexorável derrocada
eleitoral.
Encerrando
uma série de 10 artigos, o presente texto sintetiza as discussões sobre o sucesso
extraordinário que permitiu governar até 2018, e o fracasso constrangedor a
partir de 2019, do Projeto Florestania no Acre.
Tomando
por base a teoria sobre o Triangulo de Governo foi possível analisar as razões
para que o Projeto Florestania no Acre, 20 anos e cinco eleições vitoriosas
mais tarde, fracassasse nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024.
Um
mandato governamental de quatro anos, segundo o conceito concebido e
popularizado pelo economista chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, será
avaliado pela sociedade com base no desempenho do Projeto de Governo, da
Capacidade de Governo e da Governabilidade.
Quando
os três vértices caminham juntos e em equilíbrio o sucesso do governo estará
garantido, quando não, a rejeição será inevitável.
Projeto
de Governo
é a estratégia para construir o futuro da região.
Fornece
um rumo para a economia estadual, um modelo ou uma estratégia de
desenvolvimento que vai pautar as ações de cada instituição pelo tempo
necessário para que as atividades produtivas planejadas no projeto caminhem sem
descontinuidade e com pouca, ou ainda melhor, sem a ajuda do orçamento púbico.
No
caso do Projeto Florestania, os líderes políticos que assumiram o governo em
1999 convenceram os acreanos e por isso venceram as eleições sobre a estagnação
da economia estadual, devido aos limites para expansão da pecuária.
De
maneira subliminar estava implícito que o progresso ou o desenvolvimento do
Acre não seria sustentável devido à persistência das taxas anuais do desmatamento,
legalizado ou não, necessário à ampliação da pecuária extensiva.
Caberia
ressaltar aqui que, por óbvio, a estratégia da saída pela floresta, que teve na criação das Reservas Extrativistas
sua maior referencia fundiária ao garantir de terras com florestas e
desmatamento zero, não foi pensada por algum líder político que foi eleito no
período de sucesso do Projeto Florestania.
O
modelo foi gestado por um conjunto de organizações públicas e não
governamentais, com suporte científico de instituições de pesquisa e das
universidades federais que atuavam na região.
A
rigor, desde o final da década de 1980 que o efeito nefasto do desmatamento realizado
para criação extensiva de gado ganhara a mídia nacional e internacional,
mobilizando cientistas e técnicos na discussão de uma estratégia ou modelo
alternativo de desenvolvimento para a Amazônia em geral e o Acre em particular.
Não à
toa, dois legados do Acre são reconhecidos para conceituação da estratégia da saída pela floresta.
As Reservas Extrativistas como condição fundiária
idealizada e a tecnologia de manejo florestal comunitário para exploração sustentável
da biodiversidade florestal foram inventadas no Acre, ganharam o país e o
mundo.
Vários
relatórios de pesquisa, dissertações de mestrado e teses de doutorado
comprovaram a superioridade econômica da exploração comercial da biodiversidade
florestal frente a criação de boi solto no pasto para prover o PIB que o Acre
necessitava.
Defendendo
o pressuposto do desmatamento zero, o Projeto Florestania conseguiu reunir
todos que acreditavam ser possível explorar com técnica apurada sementes,
madeira, frutas, fauna e o atual mercado de carbono.
Ou
seja, gerar riqueza e emprego no Acre com a floresta em pé.
Infelizmente,
após um início identificado com a vocação produtiva florestal do Acre, em que a
aprovação da Política Estadual de Floresta e a contratação dos financiamentos
junto à tríade bancária (BNDES, Bird e BID) foram os principais mecanismos de
execução, o Projeto Florestania mostraria sinais perigosos de ausência de
liderança política e o consequente esgotamento.
Embora
seja difícil estabelecer com precisão uma data, pode-se afirmar que até 2006,
por força da herança bendita vinda da mobilização da sociedade civil pela
estratégia da saída pela floresta e
pelas Reservas Extrativistas, bem como com os financiamentos bancários amarrados
à meta do desmatamento zero, a Capacidade de Governo foi direcionada para executar
o Projeto Florestania, apoiando atividades produtivas baseadas na
biodiversidade florestal.
Contudo
e infelizmente em 2007 aconteceria o boom da pecuária extensiva, quando o
rebanho e os abates quase dobraram, numa demonstração da força dessa atividade
e da frágil determinação dos líderes políticos do Projeto Florestania.
Capacidade
de Governo
inclui as instituições que o poder executivo dispõe para satisfazer as demandas
imediatas e futuras da sociedade. Representa a estrutura física e de recursos
humanos direcionados para executar as ações previstas no Projeto Florestania.
Com
reforço de um expressivo número de técnicos vindo das organizações não
governamentais a Capacidade de Governo disponibilizada para o Projeto Florestania
teria sido mais que suficiente.
Não
eram poucos técnicos, estavam bem qualificados e dariam conta da transformação
produtiva do Acre em direção à produção explorada na biodiversidade florestal.
Mas algo não aconteceu!
Faltaram
algumas coisas, todavia, a principal lacuna foi a ausência de determinação
política.
Os
líderes políticos, eleitos governador e prefeito, bem cedo, deixaram a equipe
técnica e as instituições à deriva, a partir do momento que entenderam que a
pecuária extensiva estaria excluída da prescrição técnica e científica
predominante na estratégia da saída pela
floresta e, logo depois, na execução do Projeto Florestania.
Uma
última tentativa em relação à impossível conciliação, de modo a não perder o suposto
eleitorado que estaria sensibilizado pela pecuária extensiva, movimentou os
líderes políticos pela finalização e aprovação do Zoneamento Ecológico-Econômico,
ZEE, na expectativa de que às diretrizes exaradas do ZEE não caberia
contestação pelos políticos, ledo engano.
Tentando
unir o impossível científico de se criar boi solto no pasto plantando capim embaixo
da floresta, e o improvável político de receber, ao mesmo tempo, os votos dos
favoráveis e dos contrários ao desmatamento zero, o ZEE poderia funcionar como
a tábua de salvação. Mas, não salvou!
Aprovado
em 2007 o ZEE delimita o marco temporal, ou divisor de águas como preferem
alguns, determinante para datar o começo do fracasso do Projeto Florestania
enquanto estratégia de desenvolvimento.
O
governo propôs e os parlamentares estaduais aprovaram a redução da área de
Reserva Legal fornecendo mais de dois milhões de hectares para o desmatamento
legalizado.
Se antes
o pecuarista localizado ao longo das principais rodovias federais (BR 364 e
317) era obrigado a manter, com cobertura florestal, uma porção de 80% da área total
de sua propriedade como Reserva Legal, com aprovação do ZEE a área de Reserva
Legal foi reduzida para 50% do total, destinando a diferença de 30% de terra com
floresta para o plantio de capim.
Desde
2007, quando o ZEE passou a vigorar, até 2018, um total de 3.132 Km2
de floresta no Acre foi destruído, dentro da legalidade, sob a chancela do ZEE
e do Projeto Florestania.
Não
deixa de ser paradoxal que a mesma atividade pecuária que concentrou tanto
esforço político para evitar o ZEE, terminasse beneficiada após sua aprovação.
Mesmo
assim, a despeito de serem privilegiados no ZEE, denúncias de perseguição ao
produtor que queria desmatar foram usadas contra os líderes políticos do
próprio Florestania. Insano não?
Finalmente,
a partir daí a Capacidade de Governo deixou de ser direcionada para favorecer a
estratégia de desenvolvimento preconizada na saída pela floresta e no Projeto Florestania.
A
Governabilidade nesse momento estava capturada pela antiga estratégia de
desenvolvimento baseada na pecuária extensiva.
Governabilidade se refere às
condições políticas que envolvem as negociações que possibilitam ao governo
obter maioria no parlamento estadual para aprovar seus projetos e por duas
razões consideradas cruciais.
A
primeira se refere à manutenção do poder, ou da estabilidade política de modo a
evitar sobressaltos e pedido de impeachment que, mesmo que na maioria das vezes
naufraguem, causam paralisia decisória no poder executivo por longos e
perigosos períodos em que a máquina de governo deixa de funcionar.
Já a
segunda razão é um pouco mais complexa e diz respeito à continuidade, por um ou
mais mandatos, da execução dos projetos demandados para que a estratégia de
desenvolvimento assumida não sofra paralisações.
Quanto
mais convencidos os atores políticos acerca do potencial da estratégia adotada
pelo Projeto Florestania para alcançar o desenvolvimento do Acre, maior a
chance de manutenção da mesma Governabilidade quando houver alteração do
partido político no poder.
Evitar
o desgaste entre o arco de alianças que seguram a Governabilidade é a
palavra-chave o que exigia, do governador e prefeito eleito sob o manto do
Projeto Florestania, uma maturidade que se mostrou inexistente junto aos
líderes políticos, sempre mais preocupados com a próxima eleição.
A solução
assumida para o mesmo partido político nunca perder eleição, como não poderia
ser diferente, foi partir para o agrado generalizado transformando o Projeto Florestania
em uma cesta de boas intenções, onde todos poderiam colocar suas ideias, onde a
pecuária extensiva poderia ser prioridade.
Por
sinal, é impossível determinar se foi a perda da estratégia de desenvolvimento
do Projeto Florestania que levou ao fracasso do projeto em 2018, 2020, 2022 e
2024 ou se a Governabilidade conseguida com o apoio à pecuária extensiva garantiu
o sucesso nas cinco eleições anteriores.
O fato
é que as constrangedoras derrotas eleitorais sugerem a existência no eleitorado
acreano de uma rejeição eleitoral aos lideres políticos do Florestania sem
precedentes na história política do Acre.
Todavia
e infelizmente a conclusão é bem simples, por vontade, sede de poder,
estupidez, incompetência, ganancia ou imperícia dos líderes políticos da época
a sociedade no Acre deixou de avançar em um momento decisivo de sua trajetória econômica.
Momento
histórico pouco provável de se repetir em condições semelhantes às que foram
oferecidas ao Projeto Florestania.
Nem
tudo está perdido, afinal, não há plano b, o retrocesso à estratégia de
desenvolvimento do século passado, que depende do desmatamento para criar boi
solto no pasto, será cobrado ainda no curto prazo pelos brasileiros de outras
regiões do país e pelo mundo.
Afinal,
ninguém pode acreditar que na era do carro elétrico, da energia solar, eólica e
hidrelétrica, do prazo do Acordo de Paris, do mercado de carbono...
...o
desmatamento do Acre ainda seja tolerável.
*Engenheiro
florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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