Queimar madeira para gerar energia elétrica é bom negócio

 * Ecio Rodrigues

Não será com aquela madeira de primeira qualidade, que deverá ser transformada, com designer e artesãos muito qualificados, em um móvel de alto padrão estético vendido em nichos de mercado para aqueles que podem pagar, tampouco os pedaços e restos desse móvel.

Estima-se que na média não menos que 30% da biomassa florestal presente na árvore explorada, de modo permanente na Amazônia com emprego da tecnologia de manejo florestal, permaneça na floresta ou no local da extração após o arraste e transporte da tora.

Essa média não vale para a tora de mogno, de cedro, de cerejeira ou roxinho que vai virar o móvel de alta qualidade no exemplo acima.

No caso dessas espécies e mais algumas outras que somadas não passam de dez, ficam somente as folhas na floresta. Todos os galhos e gravetos são trazidos, com muita razão econômica, para o pátio da indústria de transformação.

Entretanto, a média estimada vale para mais de 90% das árvores, em que a tora terá uso menos requintado, destinada às vezes para a construção civil, em especial na confecção de caixotarias para formatação de vigas e colunas em concreto armado, ou moirões e currais para a pecuária extensiva.

Há, inclusive, farta literatura produzida por engenheiros florestais demonstrando que dentre os vários usos possíveis, a queima da madeira para geração de energia elétrica por meio do vapor de água em caldeiras, representa um dos menos nobres.

Mas, isto está mudando.

Transformações profundas no mercado da madeira na Amazônia estão acontecendo, em especial depois da assinatura do Acordo de Paris, em 2015, e as regulamentações para operacionalização de um mercado de carbono regulado em nível nacional.

A partir daí, mercado de carbono e a queima de madeira se encontraram de maneira forte e, espera-se de longuíssimo prazo na realidade amazônica, tendo em vista que a superação da era da geração de energia elétrica a partir de óleo diesel foi alçada à condição de prioridade nacional, por contribuir para horar os compromissos dos brasileiros assumidos perante aos outros países associados à ONU.

Com a excelente notícia de que toda tecnologia para gerar energia elétrica em caldeiras, a partir da queima de madeira e de outros combustíveis existentes na floresta (como ouriço de castanha-da-Amazônia, por exemplo), se encontra dominada pelos engenheiros desde o final do século passado, o ponto central para viabilidade financeira reside na logística.

Segundo estatísticas robustas toda vez que um caminhão carregado de madeira precisa transitar por mais de 200 quilômetros até chegar em uma caldeira onde será queimada para evaporar o vapor de água que, por sua vez, irá  movimentar a turbina e gerar energia elétrica, o prejuízo será inevitável.

As áreas de manejo florestal onde se encontram as árvores que vão manter a caldeira aquecida, desde sempre, devem se encontrar em um raio de transporte inferior aos 200 quilômetros considerados limites para a viabilidade econômica desse modelo de negócios.

Por óbvio, vários dos municípios localizados no interior da Amazônia, que atualmente não acessam a energia elétrica do SIN (Sistema Interligado Nacional), vão ser incentivados para até 2030, conforme o prazo estabelecido em Paris, abandonarem o óleo diesel e adotar a madeira e toda biomassa florestal em sua matriz de geração de energia elétrica.

Afinal, em cidades como Santa Rosa do Purus, no longínquo interior do Acre, em menos de dez quilômetros, indo para qualquer lado, tem madeira aos montes.

 

*Engenheiro Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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