COP30 na Amazônia precisa ouvir os clássicos do desenvolvimento regional
* Ecio Rodrigues
Importantes autores discutiram o processo de ocupação produtiva do
país fornecendo especial destaque à dificuldade do colonizador português para conseguir
superar os desafios impostos pelo ecossistema florestal da Amazônia.
Dentre aqueles que mais avançaram nesse debate, Caio Prado Júnior
e Sérgio Buarque de Holanda conseguiram esmiuçar de maneira excepcional o
eterno dilema na definição de um modelo apropriado de ocupação do meio rural
amazônico.
Com sensível capacidade de observação delimitaram, com inegável
precisão, a impraticável aplicação conjunta da estratégia de desenvolvimento
baseada na pecuária extensiva e na exploração sustentável da biodiversidade
florestal.
Embora hoje pareça óbvio que na mesma área de terra de onde se
extrai o látex da seringueira não é possível cultivar o capim, posto que o
plantio dependa do solo desnudo e a indispensável retirada das árvores que
fornecem a borracha no seringal nativo, naquela época distinguir entre um e
outro modelo não era tarefa fácil.
Não à toa o embate entre a participação da pecuária extensiva versus biodiversidade florestal na
composição do PIB regional tem sido absurdamente vencido pela criação de boi,
desde as vitórias da biodiversidade florestal representadas pelo ciclo
econômico da borracha encerrado em 1911.
Falando de outra maneira, o embate desmatamento versus conservação da floresta tem sido
vencido de modo assustador pelo primeiro, sempre realizado conforme previsto na
legislação e, o mais grave, com apoio indispensável de mais de 90% do montante
destinado ao crédito rural, liberado pelo Basa na Amazônia.
Como bem antecipou Caio Prado Júnior, somente por meio do estudo
minucioso da história da formação social e econômica brasileira, será possível
o estabelecimento de políticas de macroeconomia com maiores chances de acerto.
Aliás, numa de suas principais obras, História do Desenvolvimento,
o autor realizou uma retrospectiva da ocupação social e econômica do Brasil,
desde a colonização portuguesa até o processo de industrialização, ressaltando
as características da aventura colonizadora portuguesa.
Com relação à Amazônia o diagnóstico não poderia ser mais atual e
determinístico, vejam:
No vale amazônico os
gêneros de atividade se resumem praticamente a dois: penetrar a floresta ou os
rios para colher os produtos ou capturar o peixe; e conduzir as embarcações que
fazem todo o transporte e constituem o único meio de locomoção. Para ambos
estava o indígena admiravelmente preparado. A colheita, a caça, a pesca, já são
seus recursos antes da vinda do branco: como pescador, sobretudo, suas
qualidades são notáveis, e os colonos só tiveram neste terreno que aprender com
eles. (Prado Júnior, 2.000, p70).
Em
complementação, as características peculiares dos colonos portugueses que
dependiam dos indígenas para compreender a complexidade presente na
biodiversidade florestal da Amazônia, são detalhadas com maestria na célebre
obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
O
gosto por recompensas e prêmios individuais por demonstração de coragem é outra
peculiar característica da sociedade portuguesa à época da colonização, afirma
o autor. Contudo, continua, se tais características não moldam exatamente uma
índole moral ideal, o fato é que distinguiram os portugueses como admiráveis
conquistadores.
Como
“pioneiros da conquista do trópico para civilização, tiveram os portugueses,
nessa proeza, sua maior missão histórica. E sem embargo de tudo quanto se possa
alegar contra sua obra, forçoso é reconhecer que foram não somente os
portadores efetivos como os portadores naturais desta missão” (Buarque de
Holanda, 1995, p43).
A bem da verdade, a “exploração dos trópicos não se processou por
empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e
enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se
fez apesar de seus autores. E o reconhecimento deste fato não constitui
menoscabo à grandeza do esforço português” (Buarque de Holanda, 1995).
Não obstante, quando houve necessidade, os portugueses, a seu
modo, se prenderam à terra para torná-la produtiva. De fato, a tarefa da
colonização exigiu dos portugueses - mais que apreço por aventuras - adaptação
às atividades de produção.
E,
finalizando, no momento em que foi necessário se adaptar às complexidades do
ecossistema amazônico para moldar uma produção florestal na dimensão da riqueza
gerada durante o ciclo econômico da borracha, Sérgio Buarque presta sua
reverencia à contribuição inigualável dos jesuítas, vejam:
Foram ainda os
jesuítas que representaram, melhor de que ninguém, esse princípio da disciplina
pela obediência. Mesmo em nossa América do Sul, deixaram disso exemplo
memorável com suas reduções e doutrinas. Nenhuma tirania moderna, nenhum
teórico da ditadura do proletariado ou do Estado totalitário, chegou sequer a
vislumbrar a possibilidade desse prodígio de racionalização que conseguiram os
padres da Companhia de Jesus em suas missões.
(Buarque de Holanda, 2001, p39).
Não
havia e não há alternativa, o desmatamento zero deve acontecer de imediato e a
saída para o desenvolvimento é pela floresta.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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