COP30 e a estratégia de desenvolvimento para Amazônia

 * Ecio Rodrigues

Embora o foco dos debates na COP30, a conferência da ONU que está acontecendo em Belém, capital do Pará, deve permanecer no alcance da meta inescapável do desmatamento zero da Amazônia, o pano de fundo do debate será as estratégias de desenvolvimento até então adotadas na região.

Após a riqueza, jamais repetida diga-se, obtida até 1911 com a extração de látex e exportação de borracha para abastecer a indústria automobilística internacional, a região foi, em especial após a segunda guerra mundial, submetida a um conjunto de experimentos voltados para reativação de sua estagnada economia.

Enquanto um processo de industrialização forçada e que, por sinal, tem data para terminar moldava o meio urbano com a Zona Franca de Manaus, projeto que a despeito das críticas foi bem sucedido ao proporcionar a estruturação de uma metrópole moderna com uma população de mais de dois milhões de habitantes, no meio rural a pecuária extensiva se consolidou.

Outras capitais e algumas metrópoles passaram por processo semelhante com o modelo Zona Franca ou Zona de Exportação, se multiplicando na área urbana, sem, contudo trazer a esperada industrialização.

De outra banda, no setor primário da economia a pecuária extensiva se tornou hegemônica estando presente em mais de 80% das propriedades rurais e, ao mesmo tempo, sendo responsável por mais de 90% do desmatamento legalizado, e também o ilegal, que ocorrem todos os anos.

Alterar a dinâmica estabelecida pelo ciclo econômico da pecuária extensiva é, por óbvio, o maior desafio a ser superado na região se o desmatamento, novamente legal e ilegal, zero for a meta prioritária a ser alcançada.

De maneira resumida, significaria criar condições para que o produtor rural consiga auferir a mesma renda que obtém com a criação do boi solto no pasto praticando outra atividade produtiva que mantenha a floresta no solo onde seria cultivado o capim.

Deixando de lado o preconceito com a madeira, atualmente o produto de maior valor agregado existente na biodiversidade florestal da Amazônia, seria necessário implantar uma lista de projetos separados em dois grandes grupos: plantio consorciado de árvores e culturas anuais em Sistemas Agroflorestais e o manejo florestal técnico da floresta nativa.

Somente assim, a vantagem competitiva do ecossistema natural da região poderia ser superior e prevalecer ao desmatamento para cultivo de capim, quando uma única espécie substitui a biodiversidade nativa.

Entretanto, no outro lado da equação, o estabelecimento de vantagens competitivas por meio de um cluster do ecossistema nativo da Amazônia, pressupõe a existência dum capital humano bem diferente do atual, que consiga dominar as técnicas de extração comercial e sustentável dos produtos explorados nesse mesmo ecossistema florestal nativo.

Finalmente, a complexidade da biodiversidade florestal presente no ecossistema da Amazônia impõe um modelo diferenciado de exploração, que deve se voltar para a potencialização da diversidade em si mesma, de modo a fazer aumentar a biodiversidade ao invés de priorizar a produtividade isolada de uma ou outra árvore ou espécie florestal que em determinado momento adquire maior valor comercial.

Seringueira, açaí, pimenta longa, cacau e palmito são exemplos de espécies nativas da Amazônia que alcançaram valor comercial expressivo, foram domesticadas e levadas para serem cultivadas em outros lugares onde suas pragas ainda não existem.

Concluindo, na COP30 o esforço deve se concentrar nas possibilidades que a Amazônia possui para superar o decepcionante ciclo econômico da pecuária extensiva.

 

*Engenheiro Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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