Finalmente, Acre entrou no mercado de carbono jurisdicional
* Ecio Rodrigues
Embora tenha sido um dos primeiros a se preparar para o mercado
jurisdicional de carbono o Acre, depois do Pará, Tocantins e Piauí, finalmente tomou
a acertada decisão de vender créditos de carbono.
Para aqueles que não acompanham o espinhoso tema do carbono abaixo
vai uma importante atualização.
Desde o final do século passado e com maior ênfase após a transformação
do Zoneamento Ecológico-Econômico, ou ZEE, em legislação estadual ainda em
2007, dois modelos de investimento em carbono se alternavam no Acre.
Primeiro é importante esclarecer que a retirada de carbono,
leia-se fumaça, da atmosfera é um dos mais importantes mecanismos para
minimizar e até evitar o efeito trágico da mudança no clima.
Com o aumento da temperatura do planeta indo bem além das
flutuações naturais e observadas em modelos matemáticos inquestionáveis, um
conjunto robusto de estatísticas identificou o elemento químico carbono como um
dos principais causadores do aquecimento do planeta.
Por isso o carbono se converteu no foco das políticas públicas e
de projetos vinculados ao mercado. Existem, por sinal, diversas tecnologias
para capturar o carbono da atmosfera e manter o elemento químico retido para
que não volte à atmosfera.
O plantio de árvores ou a conservação das florestas nativas se
mostrou a tecnologia mais barata, rápida e com maior benefício para retirar e
reter carbono atmosférico e assim impedir o aumento da temperatura global.
Nesse contexto os países e as empresas, após muitas negociações
que começaram em 1992 no Rio de Janeiro, passaram pelo Acordo de Paris em 2015,
chegando até a COP30, que será em Belém na capital do Pará em novembro de 2025,
se esforçam para tornar atrativo ao investimento privado o que se chamou de
mercado de carbono.
Quando a negociação ocorre entre uma propriedade rural especifica
que possui as árvores e uma indústria que precisa retirar a fumaça que joga na atmosfera,
a negociação se insere no denominado mercado voluntário ou regulado de carbono.
Da mesma forma que quando um território se compromete, por
iniciativa do governo estadual, a reduzir o desmatamento em toda sua jurisdição
a partir de um ano base para outro, a diferença da quantidade de árvores
mantidas gera créditos para o mercado jurisdicional de carbono, pelo
desmatamento evitado.
Agentes financeiros de grande porte buscam o mercado jurisdicional
para adquirir os créditos de carbono e ofertar para as industrias que devem
comprar os créditos e ter autorização para produzir a fumaça.
No caso do Acre há mais de vinte anos a imprescindível cooperação
com a Alemanha por meio da GIZ, primeiro na execução do ZEE e depois com a
iniciativa do Projeto REDD/REM, contribuiu de maneira decisiva para modelar o
mercado jurisdicional de carbono no território acreano.
Infelizmente, com muita contaminação por uma política pequena, o
Instituto de Mudanças Climáticas do Acre, órgão responsável pela cooperação com
os alemães e pelo mercado jurisdicional de carbono, foi criado e extinto algumas
vezes, até que agora, parece, um sistema de geração de créditos de carbono por
desmatamento evitado vai entrar em vigor.
Após longas negociações com o governo estadual, o Banco Standard
Chartered, da Inglaterra, vai operar o sistema de geração e venda dos créditos
de carbono a serem comercializados sempre que, ou a cada ano que, a taxa de
desmatamento se reduza no Acre.
Expectativas animadoras dão conta de que nos próximos cinco anos,
ou até 2030 conforme o prazo amarado no Acordo de Paris, seja gerado um total
de cinco milhões de créditos de carbono jurisdicional no Acre, que podem ser
vendidos por 810 milhões de reais a serem adicionados ao orçamento estadual.
Como uma exigência do mercado jurisdicional, todo dinheiro obtido
na venda dos créditos de carbono, deve ser revertido para onde estão as
árvores, nas áreas indígenas, em uma Reserva Extrativista ou outra Unidade
Conservação.
Espera-se que o governo estadual enxergue no mercado de carbono a
principal razão para reduzir a área de floresta destruída todos os anos no
Acre.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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