Desmatamento reduz mais de dois terços da chuva na Amazônia
Estudo publicado por grupo internacional de pesquisadores
liderados pela Universidade de São Paulo confirma o que muitos afirmavam de
maneira empírica.
Em nível local, o desmatamento reduz a precipitação e aumenta o
calor.
Para quem caminhou por uma estrada de seringa, varadouro ou
varação, quase sempre ligando um pasto a outro das pequenas propriedades rurais
da Amazônia, esse resultado pode parecer óbvio.
Afinal, os efeitos do desmatamento para substituir a floresta são percebíveis
com facilidade e grande desconforto quando o percurso atravessa a esplanada
cultivada com o capim que alimenta o boi solto no pasto.
Entretanto, o mais importante resultado do estudo reside exatamente
na comprovação do que parecia óbvio e que, a partir desse momento, passam a
configurar fato científico.
Fato atestado, inclusive, por um estudo robusto que analisou séries
inquestionáveis de estatísticas sobre a relação entre as áreas desmatadas, a temperatura
na região desmatada e a precipitação, sempre em nível local.
Significa que se antes, alguns dos ferrenhos defensores do modelo
de ocupação produtiva ancorado na pecuária extensiva de baixíssima
produtividade, dependente do crédito rural oficial e intensiva em desmatamento,
responsabilizavam as mudanças climáticas que ocorrem em nível planetário pela
seca e calor, a partir de agora esse frágil argumento não encontra sustentação
científica.
Por isso, o grande achado dos pesquisadores paulistas, atuando em
consórcio com vários cientistas de outros países, foi quantificar e separar o
peso dos eventos climáticos, tipo El Niño, do impacto decorrente do
desmatamento em relação ao aumento da temperatura e redução de chuvas na
Amazônia.
Resumindo, existem provas cabais e definitivas para afirmar, a
partir de agora, que em relação à seca cada vez mais recorrente na Amazônia, o
desmatamento responde por mais de dois terços da redução da precipitação.
Repetindo, daqui em diante não se pode afirmar que a seca extrema,
cada vez mais frequente, sobretudo em regiões do Arco do Desmatamento na borda da
floresta no Acre, Roraima, Rondônia e assim por diante, resultam dos fenômenos
climáticos quando mais da metade da causa decorre do desmatamento.
Explicando melhor, o desmatamento legalizado e aquele realizado de
maneira ilegal, que acontecem todos os anos na Amazônia ampliam a ocorrência de
secas ao reduzir em 74,5% a quantidade de chuvas.
Difícil imaginar que nos períodos de seca profunda no Acre,
durante os meses de junho a setembro, os igarapés poderiam receber mais que o
dobro de água das chuvas se a floresta fosse mantida e não desmatada.
Ao aquecimento do planeta, resta a responsabilidade pelos arredondados
25% da diminuição das chuvas, porção realmente vinculada ao aumento da
temperatura global que é causado, por sua vez e em especial, pela quantidade de
fumaça expelida pelas fábricas desde o advento da revolução industrial ocorrida
nos países localizados no hemisfério norte a partir do final do século dezenove.
E, para deixar quem prefere culpar as forças ocultas por mazelas
locais mais sossegados, os outros países, que possuem maior participação no
aquecimento do planeta
que os países menos industrializados, devem assumir 25% da culpa pela seca que assola a Amazônia.
Por outro lado, nós, os brasileiros, que convivemos com o
desmatamento anual, teremos que assumir a culpa por 75% da redução da chuva que
poderia evitar a seca dos rios e igarapés, simples assim.
Se antes havia dúvida agora é certo, o desmatamento causa 75% da
redução das chuvas na Amazônia, não é brincadeira, pense bem nisso!
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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