Desmatamento na Amazônia e o futuro Presidente do Brasil

 * Ecio Rodrigues

Ninguém poderá negar que em toda série histórica de medições realizadas pelo reconhecido Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe, sobre o desmatamento na Amazônia, que completará 40 anos em 2027, o período mais perigoso aconteceu entre 2019 a 2022.

Nossa memória não costuma ser das melhores e a imprensa, que deveria zelar para que fatos de extrema importância não caiam no esquecimento, também não faz sua parte.

Relembrando, foi durante o mandato do governo federal anterior ao atual que o Inpe sofreu um dos maiores ataques a sua prestigiosa reputação, quando a presidência da república publicava insinuações irresponsáveis de que a instituição media o desmatamento, ou divulgava os dados, em conluio com organizações não governamentais nacionais e internacionais.

Argumento estúpido, para dizer o mínimo, mas que, infelizmente, contou com o silêncio ou anuência velada de comentaristas e jornalistas que atuam no cotidiano da informação.

No fundo, o que se viu foi uma total ausência de compromisso com o controle do desmatamento na Amazônia e com, o mais importante, a obrigação perante os outros países de atuar na busca de soluções para alcançar o desmatamento zero da Amazônia.

Não à toa, antes de o país e o mundo se voltarem para a urgência da pandemia e a busca por uma vacina, única solução possível para a tragédia que assolou a humanidade, o dilema do governo federal se resumia em questionar o Inpe e queimar as organizações ambientalistas daqui e lá de fora.

Tudo indica que esse nefasto período para a Amazônia pode se repetir.

Foram quatro anos em que a região deixou de lado a discussão e a busca de resultados para superar todos, sem exceção, os entraves que impedem a Amazônia de se equiparar ao nível de IDH nacional.

Enquanto durou a indiferença explicita do governo federal sobre o controle do desmatamento na Amazônia os investidores de tudo que é canto e os países associados à ONU, mantiveram cautela para evitar briga de bêbados, no caso com o pessoal de Brasília, colocando a Amazônia em modo de espera até o fim do esdrúxulo mandato.

Tudo, de fato e felizmente, passou.

Críticas à parte os últimos quatro anos do mandato do governo federal que se encerra em dezembro próximo não guarda qualquer tipo de comparação com a balbúrdia instalada nos quatro anos do mandato anterior.

Fornecendo total prioridade, com poder de polícia e recurso público para reduzir o desmatamento na Amazônia, chegou-se muito perto de bater o mínimo histórico que aconteceu em 2012, o ano mágico em que, sem uma explicação clara, se desmatou área de floresta inferior a cinco Km2.

Em um trabalho que merece elogios o governos federal conseguiu resgatar a reputação brasileira em relação ao controle prioritário do desmatamento da Amazônia com base nas estatísticas, únicas no mundo, levantadas e processadas com precisão pelos especialistas do Inpe.

Com disciplina e profissionalismo irrepreensível o Inpe, aquela mesma instituição que foi tripudiada pelo Presidente da República que deveria zelar por sua reputação, completará uma base de dados primários de 40 anos sobre desmatamento na Amazônia em condições de subsidiar a elaboração e discussão técnica de uma politica pública para o desmatamento zero.

Talvez assim, quem sabe, o país poderá ocupar seu lugar de liderança em uma economia de baixo carbono que cresce mundo afora.

 

*Engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Política Nacional de Meio Ambiente, 40 anos depois

Conscientização de produtor não vai zerar queimadas na Amazônia

MAMUÍ – Carica microcarpa (Jacq.), Vasconcellea microcarpa