Paisagem dos morros no Rio de Janeiro degradados pela pecuária vai mudar
* Ecio Rodrigues
Para aqueles que possuem o
privilégio de trafegar de carro pela rodovia BR 101, em especial no litoral do
Rio de Janeiro e mais especial ainda na região entre Rio das Ostras até a
divisa com São Paulo, a paisagem da mata atlântica é uma dádiva.
Regiões de montanha que de
maneira quase sempre abrupta se conectam às praias e ao mar deixam os
expectadores deslumbrados com a exuberância de um ecossistema de beleza única
no mundo.
Até que surgem os morros sem
árvores, que foram desmatados desde muito tempo, ainda nos primórdios dos
plantios de cana-de-açúcar e de café, nos idos dos séculos XVII e até início do
XX, respectivamente durante os ciclos econômicos de cada uma das commodities,
até que a história passou e a improdutiva pecuária extensiva se tornou
hegemônica.
Se antes havia um proposito
econômico, uma vez que cana-de-açúcar e café pautaram as exportações nacionais
por um longo e lucrativo período, a ocupação pela pecuária extensiva possui
retorno econômico duvidoso e impacto social quase nulo.
Todos reconhecem que o valor da
criação de boi solto nos morros, com declividade absurda para o pastoreio de
qualquer animal de médio e grande porte, onde ovinos e caprinos teriam
dificuldade de se alimentar, apresenta retorno financeiro no mínimo questionável.
Com erosão em estágios avançados
em todos os morros onde o capim é a única especial vegetal e um ou outro boi a
única espécie animal, a paisagem de elevada biodiversidade da floresta
litorânea dá lugar a uma paisagem de destruição da terra, e dos morros, que
deveria ter sido mudada ainda na primeira metade do século passado.
Duas constatações assombram quem
assiste a cada ano o aumento da erosão e a paulatina redução da produtividade
por hectare e do consequente valor econômico daquela atividade produtiva.
A primeira se refere a
assustadora resignação da população em geral e dos residentes daquela belíssima
região que não conseguem se erguer para questionar a validade da expansão da
pecuária extensiva em um ecossistema com valor turístico inquestionável.
Já a segunda constatação é bem
mais complexa.
Quais as razões obscuras que
levam parcela considerável dos pesquisadores e especialistas da área de
agronomia, sociologia e, pasmem, até da economia a defenderam a permanência da
pecuária extensiva naquele santuário sob a justificativa curta e simplória de
que “é cultural”.
Raciocínio tosco, sem dúvida, e já
bem superado posto que muitas das nossas realidades sociais em um passado até
um tanto recente poderiam estar inseridas no rol do “é cultural”. As mulheres e
um conjunto de minorias que o digam.
A boa notícia é que a curva de
hegemonia da nefasta pecuária extensiva, que depende do desmatamento e traz
retornos em impostos e empregos sofríveis, pode estar, finalmente, se
invertendo.
É o que espera o Reforest Fund,
criado pelo consórcio Pátria Investimentos e que acabou de receber aporte
considerável de recursos oriundos da mineradora Vale, para recuperar áreas
degradadas na Mata Atlântica para produzir madeira e outros produtos florestais
de maneira técnica e permanente.
A ideia, que não é nova, mas vem
sendo cada vez mais retomada, consiste em aplicar tecnologia de sistemas
agroflorestais para misturar em uma terra degradada pela pecuária extensiva
mudas de árvores, de arbustos e culturas de ciclo curto, de modo a obter
rendimentos periódicos.
Com a importante adição da
produção de carbono em um hectare, que antes alimentava apenas meio boi, a
receita líquida viabiliza a paisagem e a floresta.
*Engenheiro florestal (UFRuRJ),
mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável
(UnB).
Comentários
Postar um comentário