Finalmente, produção de madeira da Amazônia chega na Bolsa de Valores
* Ecio Rodrigues
Para quem acompanha as idas e
vindas do processo de concessão florestal, destinado à privatização da produção
de madeira amazônica em áreas públicas, o leilão realizado na Bolsa de Valores
parece até vertigem.
Mas não é, a produção de madeira
nativa da Amazônia virou negócio para o andar de cima do mercado.
No último dia 25 de agosto, a
empresa B2 venceu o leilão para explorar duas UMF (unidades de manejo
florestal) pagando um total de 14,6 milhões de Reais ao Serviço Florestal Brasileiro,
órgão que gerencia o Fundo de Desenvolvimento Florestal que recepciona os
recursos auferidos no Contrato de Concessão.
Outra indústria, a Madeirantes,
por sua vez, vai pagar 4,4 milhões de Reais para usar a tecnologia de manejo
florestal explorando madeira de maneira segura para a sociedade e o meio
ambiente e, o melhor, todos os anos e para sempre.
Não é fácil para os brasileiros e
o povo da Amazônia compreender de que maneira a derrubada de árvores,
destopamento dos troncos e aquele caminhão carregado de toras que transitam na
área urbana poderia ser realizada de maneira técnica e sem comprometer a continuidade
da floresta.
Por isso a Concessão Florestal,
instituída no início desse século pela legislação que também criou o Serviço
Florestal Brasileiro adquire importância que vai bem além da necessária e
oportuna arrecadação de recursos para as cidades, estado e a Unidade de
Conservação que está sendo explorada.
Trata-se de uma demonstração
concreta e inequívoca de que a tecnologia de manejo florestal, com um sistema
silvicultural desenvolvido para a Amazônia por pesquisadores de reconhecida excelência
que atuam no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e na Embrapa ainda na
década de 1980 do século passado, funciona.
Aquela resposta didática que os engenheiros
florestais costumam repetir para convencer as pessoas de que a tecnologia de
manejo florestal resolve, de forma definitiva, o problema da oferta de mogno, jatobá
ou cerejeira demandada pela sociedade, afirmando que manejar a floresta é
derrubar a árvore velha para a nova crescer e conservar a biodiversidade da
floresta, encontra na concessão florestal sua mais contundente comprovação.
Ambas as empresas vão, a partir
de agora, compor o seleto grupo de empresários que atuam no setor madeireiro de
maneira legítima e, mais importante, sem temer a sempre nefasta visita do
fiscal do Ibama e dos mais de 15 órgãos estaduais e municipais de controle
ambiental que castigam o setor produtivo na Amazônia.
O termo castigo pode parecer
exagerado, contudo, a relação entre empresário que explora o cumaru, cedro e
outra madeira tropical de elevado valor de mercado, aqui e lá fora, e os órgãos
de controle nunca foi das melhores.
De um lado os industriais e um
grande número de engenheiros florestais e acadêmicos, reclamam ou reconhecem,
respectivamente, o exagero das normas e, ainda bem mais grave, a frágil duração
e permanência no tempo.
Regras eram, ou são, publicadas e
outras caducam de maneira rotineira, todos os dias, sem que o investidor na
produção de madeira consiga entender os objetivos e a praticidade delas.
Tudo isso termina com a
assinatura do Contrato de Concessão Florestal, que não privatiza a floresta,
mas fornece o direito legal de explorar árvores com a tecnologia de manejo
florestal por mais de 30 anos a alguma indústria que se compromete com as
regras, essas sim definitivas.
Por seu turno a Unidade de
Conservação Floresta Nacional de Balata-Tufari, localizada nas proximidades da rodovia
BR-319, que recebe elevado impacto da inviável pecuária extensiva que exige desmatamento
anual da floresta para cultivar pasto, servirá de suporte para uma alternativa econômica
que gera mais empregos e, muito melhor, sem desmatar a floresta.
Ainda não chegamos à 50% do total
de floresta que pode ser concedida para as indústrias, mas o leilão na Bolsa de
Valores trilha um caminho sem volta. É só esperar.
*Engenheiro florestal (UFRuRJ),
mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável
(UnB).
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