Entraves da Amazônia e o futuro Presidente do Brasil

 * Ecio Rodrigues

Durante os quase 20 anos ministrando aulas para cursos de nível superior nas áreas de desenvolvimento sustentável e política regional no Acre, costumava repetir ser capaz de palestrar por 30 minutos sobre os entraves que impediam a Amazônia de alcançar níveis nacionais de IDH.

Muitos alunos, como era de se esperar diante do afastamento preocupante da realidade regional que impera nas universidades federais da Amazônia, de pronto demonstravam sua incredulidade afirmando que não havia docente em condições de dominar temas tão díspares que vão do desmatamento à zona franca de Manaus passando pela bioeconomia, tudo em um bioma complexo da dimensão da Amazônia.

Acredito e posso estar muito errado, que venci todos os desafios impostos pelos alunos, com a boa vantagem de que os temas colocados, de imediato, por cada turma para serem apresentados, de improviso, quase sempre se limitavam ao desmatamento e hidrelétricas.

Por óbvio, os entraves da Amazônia vão bem além.

Por exemplo, no conjunto de entraves liderado pelo desmatamento e a sua permanente e equivocada associação às queimadas, ainda podem ser incluídas a pavimentação de rodovias e a principal atividade econômica, ou a base da economia regional, a hegemônica pecuária extensiva.

Em algumas localidades do Pará, Rondônia, Tocantins e Mato Grosso, o visível progresso econômico e social trazido pelo agronegócio da soja, e em menor escala, do milho e do algodão, somente para ficar nas commodities mais expressivas, costuma contaminar a análise sobre o agronegócio quando comparado com a letargia econômica, do também agronegócio, da pecuária extensiva.

Embora poucos enxerguem a distância é muito grande uma vez que o custo dos aproximados 80% do desmatamento trazido pela pecuária extensiva não repõe o benefício em impostos e empregos gerados na atividade.

Bem diferente do custo dos 20% de desmatamento restante, trazidos pelo cultivo, de altíssimo nível técnico e todo mecanizado, da soja e que gera benefícios bem superiores para as cidades onde se torna hegemônica.

Ambas as atividades econômicas predominam na Amazônia, com a pecuária extensiva apresentando capilaridade invejável ao ocupar as margens dos principais rios, do Rio Juruá ao Purus, e ambas estão inseridas no setor econômico denominado agronegócio, contudo com distinções absurdas.

Somente aqueles que se dedicam à compreensão dos entraves ao desenvolvimento regional da Amazônia conseguem perceber esses detalhes onde, como bem se diz, mora o desastre.

Detalhes que podem esclarecer ou impedir a compreensão quando se discute hidrelétrica, unidades de conservação com destaque para as Reservas Extrativistas, concessão de florestas para exploração tecnificada pelas indústrias da madeira, uso econômico da biodiversidade, situação fundiária de terra ocupada por população tradicional e assim por diante.

Constrangedor, contudo, seria constatar que dos candidatos a governadores nos nove estados amazônicos e os três candidatos à Presidência da Republica que merecem análise, poucos são capazes de discutir com aprofundamento, por somente 10 minutos, algum dos entraves da Amazônia.

Todavia, com profundas diferenças na reputação de cada candidato e que cabe ao eleitor identificar, todos, sabendo ou não, terão que se submeter ao imperativo mundial do desmatamento zero.

Sem expectativa de que algum entrave seja superado até 2030, o desmatamento zero continuará prioritário para política publica.

 

*Engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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