Projeto Florestania e os órfãos do Acre
* Ecio Rodrigues
Com uma contaminação que parece não ter antídoto a captura da tese
sobre a saída pela floresta,
enquanto modelo econômico capaz de promover e sustentar o desenvolvimento no
Acre, no Projeto Florestania, ainda em 1999, se mostrou um erro estratégico dos
mais terríveis.
Ao ser contaminado pela política eleitoral, o modelo econômico da saída pela floresta passou a ter cara e
endereço, como se fizesse parte de um pacote fracassado de um ou outro grupo
político.
Mas, não era nada disso!
É bem provável que, atualmente, somente alguns poucos órfãos, como
no caso do incansável autor, ainda continuem pensando, em seu cotidiano, nas
evidências que demonstram a superioridade da alternativa de desenvolvimento
baseada na biodiversidade florestal quando comparada á expansão do desmatamento
para consolidação da pecuária extensiva no Acre.
Ainda na segunda metade da década de 1980, muitos técnicos
experientes que atuavam na Embrapa, Funtac e em um variado grupo de
organizações não governamentais, alertavam sobre os limites econômicos da
pecuária extensiva para elevar e manter o PIB do Acre.
Naquele momento, restou claro para os envolvidos com as análises
econômicas e os impactos ambientais e sociais, que deveria existir alternativa à
pecuária extensiva, sempre intensiva em desmatamento para ganho de escala
devido, em especial, a uma estagnada produtividade média de meio boi por
hectare.
Com forte dependência de uma política pública contínua e que
resistisse às mudanças de governo, algo sempre muito difícil, os especialistas
acreditavam ser possível colocar em prática no Acre o que chamavam de saída pela floresta.
Uma frase ou código para resumir um novo modelo de desenvolvimento
que trouxesse riqueza sem desmatamento e, o melhor, garantindo a conservação da
biodiversidade florestal, esse sim um recurso regional único e de competitividade
garantida, com perdão do trocadilho, pela própria natureza.
Resumindo, um monopólio regional que, por graças divina, apresenta
variações na biodiversidade e hidrografia estaduais que permitem, inclusive,
diferenciação produtiva para o Pará, Amazonas, Rondônia e Acre, por exemplo.
E mais. Um modelo de desenvolvimento econômico e de produção rural
bem diferente do atual, que tem na proteína animal, de bovinos, claro, sua
principal referencia e ocupação hegemônica nas áreas com logística considerada
privilegiada, na mata ciliar dos grandes rios e com acesso pelas principais
rodovias pavimentadas.
Ocorre que uma vez que o gado pode ser criado em qualquer lugar
desse imenso e maravilhoso país, em todo lugar haverá condições iguais ou, o
que acontece na maioria das vezes devido às condições climáticas amazônicas,
melhores para o boi pastar solto no pasto que aqui.
Na pecuária extensiva não existe empecilho técnico agronômico,
sendo a produtividade entre as localidades um indicador pouco considerado na
aprovação dos projetos do FNO geridos pelo Basa, devido à elevada viabilidade
econômica de curto prazo e em decorrência do baixo valor marginal da terra
coberta por florestas, da baixíssima geração de emprego e pouco investimento.
Mas, as condições propícias à ampliação da pecuária extensiva
possui prazo para acabar, enquanto que, por outro lado, a saída pela floresta, ao se concentrar na oferta de produtos e
serviços com monopólios amazônicos, e alguns ofertados somente pelo Acre mesmo,
possui potencial comprovado pelos cientistas para um futuro ainda por ser
totalmente revelado.
Ao se beneficiar da limitada, contudo expressiva, produção
acadêmica, quase que na totalidade publicada antes da virada do século, sobre a
alternativa para ocupação produtiva representada na saída pela floresta, o Projeto Florestania trouxe a política eleitoral
para dentro do desenvolvimento econômico do Acre.
Contaminação que urge terminar com urgência, tanto por afastar muitos
técnicos naquela época quanto por hoje atrair somente os órfãos do Florestania.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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