Modelo de desenvolvimento “Saída pela Floresta” foi contaminado pelo Projeto Florestania no Acre

 * Ecio Rodrigues

Restaram ainda alguns poucos órfãos que insistem na defesa da comprovada tese da Saída pela Floresta enquanto modelo de desenvolvimento para gerar e suportar o PIB do Acre, em níveis de emprego e renda bem superior ao atualmente obtido pela pecuária extensiva.

Não há, contudo, liderança política com coragem e discernimento suficientes para assumir o modelo preconizado pelo Projeto Florestania como alternativa à pecuária extensiva no Acre.

Acontece que ao ser transformado em um Projeto de Governo, que marcou uma época de vinte anos, de 1999 e 2018, o Projeto Florestania deixou de saldo a irrecuperável contaminação eleitoral da promissora tese da Saída pela Floresta para o desenvolvimento do Acre.

Sem expoentes na academia, nas ciências e nas artes, sem líderes na política, o Projeto Florestania agora impede que a imprescindível discussão sobre a existência de alternativa econômica à pecuária extensiva seja retomada nos moldes dos profundos debates ocorridos desde a segunda metade da década de 1980.  

Contaminação perigosa, por suposto, tendo em vista que o período eleitoral, dentre outros objetivos, deveria ser o momento para que os candidatos e os partidos políticos apresentassem sua plataforma ou ideia sobre os dois modelos de desenvolvimento possíveis para o futuro no Acre.

E não fica só nisso. O resultado visível da contaminação eleitoral não se resume na ausência de pressão pela academia, imprensa e a sociedade em geral, aos candidatos sobre os limites e alcances de cada modelo de desenvolvimento para o Acre.

Bem mais complexo, parece até impossível, seria discutir e quiçá compreender o conceito que forneceu sustentação teórica ao modelo de desenvolvimento da Saída pela Floresta e os argumentos científicos que justificam os limites reais para a expansão da pecuária extensiva.

Para ajudar a entender, vamos lá.

Mesmo após superar a barreira de cinco milhões de cabeças em 2025, o plantel de bovinos, vivos e abatidos todos os anos, não é suficiente para gerar o emprego e a riqueza no meio rural, que os mais de 800 mil acreanos necessitam.

Considerando que a base da economia estadual, diante da existência de uma indústria incipiente e nenhuma perspectiva de crescimento a partir dos produtos saídos da pecuária extensiva, a economia de todos os municípios, inclusive de Rio Branco com seu robusto setor terciário, continua há mais de 50 anos dependente dos repasses federais constitucionais e dos recursos discricionários que são liberados por meio das necessárias articulações políticas.

Nunca é demais lembrar. A busca de alternativa ao modelo da pecuária extensiva se mostra urgente devido ao limite imposto ao desmatamento.

Hoje, pelas regras atuais dispostas no Código Florestal aprovado em 2012 e com constitucionalidade total reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2018, não há escapatória ou jeitinho para ampliação do desmatamento para além dos 20% da área da propriedade particular.

Em poucos casos, somente em situações bem especiais, o desmatamento na propriedade particular pode chegar a 50%. O que importa, todavia, é que nas localidades com maior plantel bovino o limite para se desmatar chegou há alguns anos.

Acreditar em afrouxamento do Código Florestal, para ampliar a área de pastagem e, assim, possibilitar ganhos de escala no plantel de bovinos no Acre é viver meio fora da realidade, daqui e lá de fora.

Os limites para pecuária extensiva manter a riqueza anual que o Acre necessita são visíveis e insuperáveis, o que fazer? Só existe um rumo: a Saída pela Floresta!

 

*Engenheiro Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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