Pioneiro no mercado jurisdicional de carbono, Acre perde protagonismo
* Ecio Rodrigues
Desde o final da década de 1980 a agência de cooperação alemã,
conhecida pela sigla GIZ, apoiou de maneira incondicional todos os governos do
Acre para executar o Zoneamento Ecológico-Econômico, ou ZEE.
Instituído com a aprovação da Lei 1.904 em 2007, o ZEE foi fruto
de um conjunto enorme de estudos que percorreram todo território acreano, disponibilizando
um banco de dados sobre recursos hídricos, fauna e florestas que poucas regiões
amazônicas possuem.
Com custos e prazo de execução elevados o ZEE, custeado na maior
parte pela GIZ, incluiu o Acre na lista dos raros territórios localizados na
região norte em condições de planejar sua ocupação produtiva com uma técnica
apurada.
Embora com resultados questionáveis, uma que o ZEE legalizou a
instalação da pecuária extensiva em uma quantidade expressiva de terras
ocupadas com florestas e com logística favorável nas margens das rodovias BR
364 e 317, são inquestionáveis a qualidade dos estudos realizados.
Infelizmente, as negociações para transformar o ZEE em legislação
obrigatória deixaram de lado boa parte dos resultados e das prescrições
técnicas para favorecer a ampliação da pecuária extensiva.
Não à toa, as estatísticas de crescimento da pecuária extensiva no
Acre comprovam um marco de crescimento pontual a partir de 2007, com um salto expressivo
em número de abates e no plantel, característicos de um boom no histórico da
criação extensiva de gado na região.
Nem antes nem depois do salto de 2007 a pecuária extensiva
observou alteração tão expressiva em seu crescimento e em sua participação na
composição da riqueza ou do PIB estadual.
Resumindo, o agronegócio da pecuária extensiva hegemônico no atual
meio rural do Acre chegou ao pico de crescimento em 2025, com um rebanho superior
a cinco milhões de cabeças, graças ao boom ocorrido em 2007 que apesar de pouco
explicado recebeu, com segurança, os impactos da ampliação do desmatamento
legalizado a partir da aprovação do ZEE.
Felizmente, todo conhecimento do território acreano trazido pelo
ZEE possibilitou estruturar, quase dez depois, o sistema de pagamentos por
serviços ambientais, conhecido como Projeto REDD/REM.
Sempre contando com o permanente e imprescindível apoio dos
alemães, o Projeto REDD/REM foi um dos primeiros a organizar um sistema de mercado
de carbono jurisdicional do país.
Por esse excelente sistema, ao invés de propriedades, quer seja privada
ou uma unidade conservação, são computados o total de emissões e retenções de
carbono ocorrido em um ano em todo território estadual.
Sempre que a área desmatada diminui a jurisdição, ou o Estado,
pode contabilizar um crédito de carbono a ser comercializado, com toda segurança
no mercado jurisdicional que é garantido pelo governo e, o melhor, pelo sistema
de aferição, infalível e preciso, realizado pelo reconhecido Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, Inpe.
Por razões que não cabem nesse espaço, o Projeto REDD/REM do Acre
empacou em alguma etapa de sua implementação.
Talvez, devido a extinção e posterior recriação do Instituto de
Mudanças Climáticas, ou, talvez, por dificuldades técnicas generalizadas e em
todos os níveis de governo, simplesmente.
O fato é que o mercado de carbono jurisdicional se encontra em
franca expansão no Tocantins e no Pará, enquanto no Acre parece não ter nem
começado.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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