Quarto artigo da série RETROSPECTIVA SUSTENTABILIDADE DA AMAZÔNIA EM 2022 (publicado originalmente em 23/10/2022).
Para iniciar
o novo ano (2023), e como forma de apresentar uma mostra da realidade vivenciada
na Amazônia durante os 12 meses do ano que terminou, foram selecionados e serão
novamente postados, neste espaço, textos considerados representativos, entre os
mais de 50 artigos publicados em 2022.
O quarto artigo da seleção, publicado
originalmente em 23/10/2022 com o sugestivo título “Vote pela Amazônia”, destacou que o desmatamento zero deve ser
assumido como prioridade nacional para Amazônia nos próximos 4 anos de gestão
do presidente da república a partir de janeiro de 2023. Mais que isso,
demonstrou que o significado das eleições para a Amazônia não residiria na
pavimentação de estradas, na construção de hidrelétricas ou em outras obras,
uma vez que a infraestrutura necessária à região foi consolidada nos últimos 50
anos e está planejada para os próximos 20 independente do governo federal de
ocasião. O que importa de verdade e que vai servir de julgamento público
nacional e internacional para o atual governo é zerar a destruição florestal na
Amazônia e, para tal, é preciso reconhecer, primeiro, que a raiz do problema
está na pecuária extensiva; segundo, que a motivação do produtor para desmatar
é econômica e, terceiro, que são os bancos estatais que financiam a maior parte
do desmatamento para criação extensiva de gado. O raciocínio é simples, a
decisão de investimento do produtor é estimulada pelas facilidades oferecidas
pelo crédito rural subsidiado, via FNO e Pronaf. Quando essa oferta de crédito
prioriza a pecuária extensiva, como ocorre atualmente, o desmatamento legalizado
aumenta. De outra banda, a exclusão da pecuária da oferta de crédito não
implica a redução do montante destinado ao produtor rural, mas apenas seu
redirecionamento a atividades produtivas que não dependem do desmatamento. Para
quem mora na Amazônia e se preocupa com a floresta, valeria pensar nisso na
hora do voto.
A todos
boa releitura.
Vote
pela Amazônia
* Ecio Rodrigues
Para que a discussão
em torno do futuro da Amazônia avance é preciso levar em conta duas constatações
comprovadas em teses de doutorado e pesquisas científicas consumadas no âmbito
de instituições do porte da Embrapa e do Inpa, que gozam de amplo
reconhecimento internacional.
Em primeiro lugar, o
desmatamento é de longe o maior problema social, econômico e ecológico da
região, sendo que a superação desse grave empecilho depende de um esforço
concentrado de políticas públicas.
Em segundo lugar, a
principal responsável pelo desmatamento é a pecuária extensiva praticada nos
moldes atuais, ou seja, uma atividade que ostenta produtividade sofrível (2
hectares de pasto por cabeça), que só se viabiliza porque conta com fartura de
terras e capital barato assegurado pelo FNO e Pronaf, além de não pagar pela
água que o boi bebe (veja: http://www.andiroba.org.br/artigos/?post_id=2351&artigos_ano=2013).
Só quando essas
premissas forem reconhecidas e assumidas, os políticos e os gestores por eles
nomeados entenderão que para alcançar o desmatamento zero – uma imposição do
mundo aos brasileiros, sobretudo a partir da celebração do Acordo do Paris em
2015 – é imprescindível, antes de tudo, desincentivar a primitiva prática da criação
extensiva de boi.
Uma decisão complexa,
que requer compreensão da dinâmica do desmatamento na Amazônia.
Os dados coletados
pelo conceituado Inpe desde 1988 demonstram que, da mesma maneira como acontece
em quase toda análise estatística de eventos sociais e econômicos, a curva do
desmatamento exibe uma porção inercial.
Esse efeito inercial
aparece justamente porque a resolução de desmatar é uma decisão privada de
investimento e, em tal condição, envolve análise precedente de custos e
receitas, o que o produtor costuma fazer no ano anterior.
Não é por acaso que se
deita ênfase, aqui (como também em todos os outros artigos publicados neste
espaço), na motivação econômica da destruição florestal.
Explicando melhor. O
produtor que pretende ampliar seu pasto e, por conseguinte, seu gado (quase
sempre usando o fogo para limpar o solo antes de plantar capim), precisa
planejar o investimento com pelo menos um ano de antecedência.
Significa dizer que o desmatamento
de 2023 está sendo decidido agora.
Cumpre enfatizar que o
boi solto no pasto domina a paisagem rural da Amazônia, sendo encontrado nas
grandes propriedades, que somam mais de 1.000 hectares, mas também nas
pequenas, que não chegam a 100 hectares.
Por sinal, está na
agricultura familiar e nos pequenos rebanhos o maior entrave para a redução –
muito necessária – do crédito rural disponibilizado pelo Pronaf, que prioriza o
exercício da pecuária extensiva. É inegável, claro, a importância social do
gado para o pequeno produtor.
Entretanto, sob essa
justificativa vão se criando cada vez mais empecilhos que entravam a restrição
do financiamento público oferecido à pecuária extensiva e, em consequência, ao
desmatamento zero da Amazônia. (saiba mais aqui: http://www.andiroba.org.br/artigos/?post_id=4566&artigos_ano=2019).
Enfim, por um lado,
encarar o desafio de reduzir de maneira drástica o apoio estatal à criação de
gado solto em dois hectares de florestas desmatadas significa enfrentar o poder
político dos pecuaristas.
Por outro, significa
enfrentar o poder político da agricultura familiar. Afinal, é equivocada a
ideia recorrente de que apenas a grande propriedade cria boi e desmata.
A empreitada, há de se
convir, não é nada animadora. Mas não existe plano B.
A conclusão é simples.
Para alcançar o desmatamento zero na Amazônia, o crédito fornecido ao boi solto
no pasto também deve ser zerado. Para os grandes produtores e para os pequenos.
Quem é capaz de vencer
esse desafio? Pense na Amazônia e vote por ela.
*Engenheiro
florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR), e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
Comentários
Postar um comentário