Certificação do FSC contribui para desmatamento zero na Amazônia
* Ecio Rodrigues
Ainda
que para alguns não seja evidente, é direta a relação existente entre a
certificação de produtos da biodiversidade florestal e a redução das
persistentes taxas anuais de desmatamento que incidem sobre a Amazônia e
envergonham o país.
Primeiro,
nunca é demais repetir. Entre 1º de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021, nada
menos que 13.235 km2 de florestas foram destruídas na Amazônia – o
que representa uma alta de 22% em relação ao período anterior.
Ao assentar
sua marca, ou selo, num produto extraído da biodiversidade florestal, em
especial e na maioria das vezes a madeira, o FSC (sigla em inglês para Conselho
Internacional de Manejo Florestal) atesta que a exploração desse produto foi
realizada segundo critérios de sustentabilidade social, ecológica e econômica
aceitos no mundo.
O
sucesso ou fracasso do procedimento de certificação depende, obviamente, da conscientização
do consumidor, eis que quem compra o produto deve reconhecer e valorizar o
respectivo selo.
Sem
embargo, há que se convir que, mesmo para um consumidor consciente, é difícil se
manter informado, de forma a compreender as nuances de determinado tipo de
processo produtivo e suas implicações para a sustentabilidade ecológica.
Os
sistemas de rotulagem ambiental (entre os quais se insere a certificação
florestal do FSC) surgiram justamente com essa finalidade, vale dizer, oferecer
ao consumidor segurança e garantia de que a produção não causou nenhum
comprometimento ambiental.
Desde
a implementação do selo “Anjo Azul” na Alemanha, em 1977, considerado o
primeiro rótulo ambiental criado no mundo, um variado leque de sistemas passou
a ser desenvolvido em diversos países, e na década de 1990 a rotulagem
ambiental apresentou crescimento impressionante.
Seguindo
a tendência mundial e buscando se adequar às exigências ambientais, a International
Standard Organization elaborou diretrizes para processos produtivos, reunidas na
série ISO 14000.
As
discussões que cercaram o surgimento da rotulagem e da série ambiental ISO
14000 são similares às que acompanharam o desenvolvimento da certificação de origem
para a exploração da biodiversidade florestal na Amazônia.
Em
geral, os argumentos contrários à certificação pelo FSC, que é o selo mais
reconhecido no mundo, se apoiam em duas premissas bastante questionáveis.
Primeiro,
que a certificação seria invenção de países ricos, que, dessa forma,
estabelecem barreiras não tarifárias aos produtos dos países em desenvolvimento
ou pobres.
Segundo,
que acarreta a elevação de custos, tornando menos competitivos os produtos dos mesos
países pobres/em desenvolvimento.
Ora,
esse argumento de que a certificação configura barreira não tarifária não tem
cabimento e não é admitido em nenhuma parte do mundo. Na verdade, trata-se de
uma qualificação, um requisito de padronização que cada vez mais é imposto
pelos consumidores.
Ademais,
a imputação de barreiras não tarifárias, que valem para todos os países e
produtos indiscriminadamente, é prática combatida pelas organizações de
comércio e está praticamente banida do mercado mundial.
De
outra banda, os custos da certificação são assimilados pela entrada e
permanência em mercados com maior escala de consumo.
Como
dizem os engenheiros florestais, 3 produtos bem diferentes são manufaturados
pela indústria madeireira na Amazônia: madeira legalizada; madeira manejada; e a
mais valorizada, madeira certificada.
O
preço de venda aumenta nessa ordem, da primeira para a terceira (para saber
mais, acesse: http://www.andiroba.org.br/artigos/?post_id=3958).
Escapando
à armadilha da discussão infrutífera em torno da legalidade/ilegalidade do
desmatamento, a certificação amplia, perante a pecuária extensiva, a
competitividade dos produtos extraídos da biodiversidade florestal – tornando o
desmatamento menos rentável para o produtor.
É
simples, quando 1 hectare de biodiversidade florestal valer mais que 1 boi
pastando em 2 hectares, a Amazônia alcançará o desmatamento zero. Nunca antes.
*Professor Associado da Universidade Federal do
Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor
em Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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