Perguntas que os órfãos do Projeto Florestania deveriam responder
* Ecio Rodrigues
Em seu decisivo momento, durante as duas primeiras das cinco eleições
consecutivas vencidas pelos líderes políticos do Projeto Florestania, algumas
perguntas consideradas elementares para um modelo de desenvolvimento no Acre
deveriam, mas não foram, respondidas.
Mais grave ainda é que ao se esquivar de responder o Projeto
Florestania deixou, por um lado, um vazio teórico que dificulta seu
detalhamento por economistas, engenheiros e outros estudiosos que poderiam dar
continuidade à importante discussão sobre estratégias de desenvolvimento no
Acre.
E bem mais grave, por outro lado, a falta de respostas deixou a
sensação de que tudo não passou de discurso de palanque, no mais acintoso
estelionato eleitoral visto na história política recente do Acre.
Tudo isso, claro, até a constrangedora derrocada eleitoral em
2018.
Depois de muito analisar e de maneira um tanto prematura foi
possível elaborar pelo menos cinco perguntas que, grosso modo, deveriam ser respondidas
pelos líderes políticos que se vincularam ao Projeto Florestania e receberam,
por quase vinte anos, quantidade expressiva de votos.
Respostas que deveriam vir também do conjunto de pesquisadores,
acadêmicos e técnicos que participaram da equipe de gestores durante cinco
mandatos governamentais ininterruptos fornecendo uma contribuição significativa
para colocar em prática o Projeto Florestania.
Na condição de um modelo alternativo de produção rural com desmatamento
zero no Acre, o Projeto Florestania parece ter exigido demais das instituições
de governo que, a despeito da alteração em um ou outro nome de alguma
Secretaria de Estado, não conseguiu fornecer a continuidade e perenidade
administrativa que o Projeto Florestania requeria.
Dentre as cinco, a primeira questão que surgiu como um imperativo
inadiável e ao mesmo tempo um dos maiores desafios (de intelecto, de expertise
e de articulação política) para ser respondida, pode ser resumida, mais ou
menos, assim:
1 - De que modo o modelo
produtivo ancorado na biodiversidade florestal e gestado pelas organizações do
terceiro setor, sintetizado na expressão Saída
pela Floresta, poderia ser transformado em Projeto de Governo?
Exceto pelos documentos de
projetos de investimento para captação de recursos (elaborados quase sempre por
especialistas com carreira em alguma instituição de pesquisa ou do terceiro
setor e, o mais importante, com reputação reconhecida pelas agências de
financiamento), aprovados pelos três principais bancos financiadores (Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES, Banco Mundial-Bird e
Banco Interamericano-BID), o Projeto Florestania jamais foi detalhado em
manuais operativos ou em análises econômicas estruturais para ser instituído e executado
como Projeto de Governo.
Ao contrário. Muitas páginas
foram escritas para demonstrar que o Projeto Florestania esbanjava apoio popular,
contando com envolvimento da sociedade civil e sempre na defesa de uma forte mobilização
cultural em torno do que se chamou de “cidadania da floresta” e, com bem menos
motivação, como Projeto de Governo para o desmatamento zero no Acre.
Isto é, gerar riqueza ou elevar o
PIB florestal estadual não entrou no radar a despeito de os líderes políticos
do Projeto Florestania assumirem a redução do desmatamento como propósito, em
todas as campanhas eleitorais mesmo cientes de que o desmatamento zero só
poderia ser alcançado a partir da adoção do modelo de desenvolvimento ancorado
na Saída pela Floresta.
As evidencias mostram que o objetivo
não era mesmo fazer do Projeto Florestania um modelo de desenvolvimento no
Acre? Tem mais perguntas por vir.
*Engenheiro
Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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