Fim do Florestania no Acre: Técnicos, ONGs e Capacidade de Governo
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
* Ecio Rodrigues
Em uma
série de dez artigos, publicados nesse espaço, vem sendo discutido a
importância do Projeto Florestania para a estratégia de desenvolvimento adotada
no Acre, tanto em seu período de sucesso eleitoral (1999-2018) quanto em
relação aos os últimos constrangedores fracassos.
Desde
2019 o governo e a prefeitura da capital, Rio Branco, investem parcela
considerável do orçamento público no apoio ao Projeto de Governo do
Agronegócio, com foco na expansão e consolidação da pecuária extensiva.
Em
tese, fazendo contraditório à pecuária extensiva, o Projeto de Governo
Florestania, foi derrotado de maneira esmagadora, com nenhuma chance de segundo
turno nas eleições, nos pleitos de 2018, 2020, 2022 e 2024.
Poucos
foram, a bem da verdade, os defensores do Florestania em todos os quatro
expressivos fracassos eleitorais o que sugere a existência de uma rejeição
impregnada nos políticos que, de maneira direta ou não, ainda são identificados
com o Florestania, embora façam de tudo para evitar o assunto.
Entretanto,
se de um lado o marketing do Florestania foi usado de maneira corriqueira
enquanto trouxe benefícios eleitorais até 2018, na prática, constata-se que os
vinte anos ininterruptos de governo do mesmo partido político, a contar de
1999, deixou de priorizar a saída pela
floresta preconizada pelo Florestania.
Não à
toa, a pecuária extensiva jamais deixou de ser financiada com recursos vultosos
oriundos do orçamento estadual, gerido pelo governo do Acre, com um visível boom
do ciclo econômico da pecuária extensiva registrado em 2007, quando o abate e o
rebanho de gado se elevaram a outro nível de participação no PIB acreano.
Concluir
que, a despeito do sucesso enquanto marketing eleitoral, o Projeto Florestania
não recebeu da Capacidade de Governo o suporte demandado para sua real implantação,
pode sugerir que os líderes políticos priorizavam as reeleições em detrimento
do futuro do desenvolvimento almejado para o Acre, o que, por conseguinte,
ajuda a entender a reincidente e elevada rejeição eleitoral.
Talvez
o cinismo e hipocrisia em vender uma potencial e comprovada economia ancorada
na biodiversidade florestal, tema de deverá ser retomado com força durante a
COP30 em Belém do Pará, enquanto direcionava a Capacidade de Governo no apoio à
ampliação da pecuária extensiva nas florestas legalizada pelo Zoneamento
Ecológico Econômico, explique a rejeição e desilusão do eleitorado.
Somente
para lembrar, pela teoria do Triangulo de Governo elaborada pelo economista
chileno Carlos Matus ainda na década de 1970, enquanto o Projeto de Governo
estabelece um rumo e a Governabilidade fornece estabilidade política, a
Capacidade de Governo se refere a estrutura operacional que cria condições para
realizar obras e investimentos, estatais e privados.
Juntos
formam o tripé, ou triangulo, que uma vez conduzidos de maneira equilibrada e
de acordo com os pesos e contrapesos de uma democracia moderna acarretam o
sucesso de um mandato, do contrário, o fracasso.
Como analisado
nos seis artigos anteriores o Projeto Florestania enfatizou o resgate de
valores culturais de um acreanismo adormecido, sem decidir por apoiar o Projeto
Agronegócio da pecuária extensiva ou o Florestania da exploração técnica e
comercial da biodiversidade florestal enquanto estratégia de desenvolvimento
econômico para o Acre.
Ao
decidir pela generalização inclusiva, onde todos e tudo era possível, cabia o pecuarista
e o extrativista, os líderes políticos do Florestania transferiram o conflito
entre os dois modelos de ocupação produtiva para a rotina diária dos gestores
responsáveis pela Capacidade de Governo.
Isto
é, com pouca ou nenhuma orientação política superior, que deveria vir dos governadores
e prefeitos eleitos, ficou ao encargo da equipe técnica as decisões de rotina,
que no cotidiano favorecem a saída pela floresta ou a pecuária extensiva, pendendo
para um e outro lado dos modelos.
Há,
contudo, um registro histórico que não jamais estará perdido.
Antes
de se chamar Florestania e ser alçado à condição de Projeto de Governo em 1999,
um conjunto de seis organizações não governamentais, ou do terceiro setor, ou
ainda organizações da sociedade civil, para usar uma denominação menos
preconceituosa, discutiram e detalharam vários pontos do que chamavam de saída pela floresta.
Muitos
devem recordar que nos idos de 1988, quase dez anos antes do Projeto Florestania,
com apoio técnico imprescindível do extinto Centro de Trabalhadores da
Amazônia, CTA, as organizações do Acre garantiram a regularização de mais de dois
milhões de hectares de florestas, a serem conservadas no formato fundiário de Reservas
Extrativistas, ou Resex.
Não à
toa a invenção da Resex e a concepção da tecnologia do manejo florestal
comunitário são dois reconhecidos legados do Acre para a Amazônia.
Em
síntese, dentro da Resex a agricultura de subsistência e a pecuária extensiva não
podem ser realizadas para ganhar dinheiro ou com interesse comercial.
A
geração de renda na Resex vem, exclusivamente, da exploração técnica e sustentável
da biodiversidade florestal, o que, por conseguinte, impede que o desmatamento
presente fora da Resex, em seu entorno, se alastre para dentro.
Dessa
maneira, com quase metade do território do Acre destinado para Unidades de
Conservação, por força da legislação fundiária federal, a comercialização de
produtos extraídos da biodiversidade florestal existente na Resex, traria o
desenvolvimento econômico estadual que deixaria de depender do nefasto
desmatamento exigido pela pecuária extensiva.
Do
ponto de vista político, as organizações atuantes no Acre, desde o final da
década de 1980, depositaram irrestrito apoio à ampliação da regularização
fundiária de terras com florestas para que a conservação da biodiversidade
florestal funcionasse como contraponto à criação extensiva de boi, atraindo
investimento público, privado e da cooperação internacional.
Naquela
época, em 1988, com esforço visionário, se antecipava o que o mercado
voluntário, regulado e jurisdicional de carbono poderá fazer acontecer, em
2025.
Mais
que apoio político, um pequeno conjunto de técnicos qualificado pelas
organizações migrou para a estrutura de governo, na vã expectativa de que em
cargos de direção poderiam investir a Capacidade de Governo para colocar em
prática o Projeto Florestania, reduzindo de maneira paulatina o apoio recebido
pela pecuária extensiva.
No
início até que deu certo.
Nos
primeiros cinco anos de uma hegemonia que durou 20, o Projeto Florestania incentivou
algumas importantes atividades vinculadas ao uso comercial da biodiversidade
florestal.
Em
2001, por exemplo, foi aprovada a Lei 1.426 que instituiu a Política Estadual
de Florestas, o que proporcionou a criação da Secretaria Executiva de Floresta
e Extrativismo, de início subordinada a Secretaria de Produção e no ano
seguinte transformada em Secretaria Estadual de Floresta.
Foi
nesse período também que se construiu a fábrica de pisos de Xapuri, que a
despeito dos graves e insuperáveis problemas de gestão, era uma indústria
automatizada voltada para produção de tacos, fornecendo o necessário alto valor
agregado à madeira produzida no manejo florestal comunitário praticado na
Resex.
Ainda
em Xapuri se instalou a Natex, com repetidos graves problemas de gestão, mas
que era uma fábrica de preservativos masculinos, de última geração, que seria abastecida
com o látex nativo extraído nas colocações de seringa dos extrativistas que
vivem no alto Rio Acre.
Finalmente,
foi fundamental o papel dos profissionais que tinham trabalhado antes com a estratégia
de desenvolvimento visionária da saída
pela floresta, em organizações do terceiro setor, de modo a fortalecer a
Capacidade de Governo, preenchendo a lacuna de compreensão e interpretação do Projeto
Florestania.
Por
sinal, foi com base na experiência adquirida por esses técnicos que tornou
possível aprovar os três grandes projetos de financiamentos bancários,
considerados decisivos para o modelo de desenvolvimento do Acre segundo os
ideais do Florestania, baseado na saída
pela floresta.
Mas,
isso é outro artigo.
*Engenheiro
florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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