Fim do Florestania no Acre: Gestores e técnicos despreparados
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
* Ecio Rodrigues
Segundo
a teoria do Triangulo de Governo, elaborada pelo economista chileno Carlos
Matus na década de 1970, os gestores e técnicos compõem a Capacidade de Governo
que em conjunto com o Projeto de Governo e a Governabilidade formam o tripé de
sustentação de um mandato.
Quando
o tripé de sustentação funciona em equilíbrio, o mandato pode conseguir ter
sucesso quando não, fracassa e o governante, vez ou outra, sai pela porta dos
fundos do palácio.
No
caso do fracasso do Projeto Florestania, analisado aqui e em outros nove artigos
semelhantes publicados nesse espaço, a reduzida quantidade e qualificação dos
gestores e equipe técnica comprometeu a Capacidade de Governo, que deveria criar
as condições propícias ao progresso econômico com desmatamento zero.
Para
quem acabou de chegar o Acre, em todo seu território, não possui as vantagens
comparativas de seu vizinho Rondônia que esbanja potencial mineral, possui força
hidroelétrica de sobra e terras planas férteis 100% mecanizáveis de dar inveja,
tudo de acordo com o cenário desejado pelo agronegócio muito tecnificado que
gera, fora daqui, a metade da riqueza nacional.
Nada
disso, o Acre possui somente a vantagem comparativa de em quase 80% do
território ainda existir biomassa florestal com índice de biodiversidade
aferido e superior às formações florestais dos vizinhos.
Todavia,
transformar a única vantagem comparativa em produtos que possam ser explorados
com técnica e comercializados de maneira permanente e na quantidade requerida
para gerar a riqueza que a sociedade necessita foi o que motivou um conjunto de
organizações a conceber o que chamaram de saída pela floresta.
Após
ser alçada à prioridade de governo a saída pela floresta se transformou em
Projeto Florestania, o que levou as organizações que vinham executando uma
série de ações, desde o final da década de 1980, a disponibilizar sua equipe
técnica para diversos órgãos de governo em 1999.
De
pronto se percebeu que o número de profissionais era menos de 10% da demanda para
tornar a Capacidade de Governo coerente com o desafio imposto pelo Projeto
Florestania.
Além
de não atentar para a importância de uma equipe bem maior e mais especializada,
os governadores e prefeitos eleitos sob os ideais do Florestania esqueceram de
que o combate ao desmatamento era ponto inegociável para aquela nova estratégia
de desenvolvimento.
Pelo
contrário, as taxas de desmatamento, com algumas flutuações para baixo graças ao
esforço do governo federal, segui a tendência de elevação em especial após o
boom da pecuária extensiva no Acre a partir de 2007.
Talvez
esteja aí, a informação que evidencia com razoável precisão a pouca, ou quase
nenhuma, capacidade técnica existente para colocar o Projeto Florestania em
prática.
A
elevação da pecuária extensiva para um nível superior de participação no PIB
estadual teve início a partir de 2007 até chegar em 2025, predominante em todo
território do Acre, na beira das rodovias e na mata ciliar dos rios, com um
expressivo rebanho de mais de cinco milhões de cabeças.
Talvez,
com algumas boas doses de cinismo, a intensão dos líderes políticos fosse essa
mesmo, a de repetir o slogan do Projeto Florestania no período eleitoral
enquanto, de fato, acreditava na estratégia de desenvolvimento baseada na
pecuária extensiva.
No
ponto alto da hipocrisia política os líderes, provavelmente, consideraram que a
sociedade acreana conviveria e aceitaria, em prol da riqueza trazida pela
criação de gado, uma destruição florestal anual na casa dos 500 Km2,
conforme observada no período entre 1999 e 2018.
Mas a
conta eleitoral chegou e os fracassos constrangedores em 2018, 2020, 2022 e
2024, podem significar que o cinismo e hipocrisia podem ter moldado uma
rejeição eleitoral com duração ainda indefinida.
Seria
injusto, por óbvio, deixar de registrar os poucos profissionais que se
mantiveram leais aos pressupostos do Projeto Florestania, a despeito de serem
rotulados de traidores por um ou outro partido político que se denomina de
esquerda.
Organizações
voltadas ao monitoramento e pesquisas sobre as alternativas produtivas com
desmatamento zero, se tornaram os poucos polos de uma saída pela floresta cada
vez mais inexistente.
Alguns
podem arguir que a falta de uma equipe técnica compatível com a demanda
apresentada não tenha sido intencional e sim fruto da extrema ausência de especialistas
com o perfil, quase inexistente no mercado, que era requerido.
Embora
se reconheça a dificuldade do governo para selecionar e contratar profissionais
experientes em projetos de desenvolvimento para o Acre, os líderes políticos do
Projeto Florestania não demonstraram estatura para compreender e, o mais grave,
tentar vencer esse desafio.
Resumindo,
o complexo desafio da transformação produtiva em direção ao aproveitamento do
potencial representado pela biodiversidade florestal se mostrou grande demais
para o número e a experiência acumulada pelos especialistas disponíveis na
estrutura de governo dos quatro mandatos.
Como
afirmam os produtores criar boi é fácil, agora, manejar a floresta é muito complicado.
Aqueles
que estão familiarizados com a realidade rural amazônica e sobretudo no Acre
devem concordar que tirar a produção rural de mais de 40 anos de atraso
tecnológico, em que predominam a criação de boi e o plantio de subsistência de arroz,
feijão, milho e macaxeira, não é tarefa das mais simples.
Empreitada,
contudo, piorada em demasia quando a alternativa ao primitivo modelo de corte-e-queima,
única diga-se, reside na exploração de um rol de
produtos que existem na biodiversidade florestal, mas que, devido a muitas
razões, apresentam uma insuperável falha de mercado.
Ao
mesmo tempo em que os produtos florestais possuem reconhecido valor econômico
estratégico, para o futuro, a biodiversidade florestal não consegue ser
comercializada com preço atrativo hoje, no presente.
Alguns
produtos mais outros menos, porém a falha de mercado é uma realidade que
persiste desde o final do século passado e somente poderá ser superada com
ajuda incondicional e permanente de uma política pública que resista ao tempo.
Pelos próximos 20 anos, por exemplo.
Para
contextualizar pode-se afirmar que em uma métrica de sustentabilidade as
diversas alternativas produtivas para ocupação do solo no Acre variam do menor
nível e elevado risco ecológico, representado pelo desmatamento para plantio de
capim, até o de maior sustentabilidade e risco ecológico zero representado pela
Estação Ecológica do rio Acre, onde é proibido mexer na floresta.
Em
outras palavras, assumindo que não há menor chance de convivência desses dois
modelos funcionarem, ao mesmo tempo, na terra com e sem desmatamento, a
economia no setor primário acreano se concentra em dois grandes grupos:
exploração técnica e comercial da biodiversidade florestal versus destruição da biodiversidade florestal.
Dominar,
compreender e concordar com essa máxima deveria ser uma condição para os
especialistas entrarem na equipe responsável pela execução do Projeto
Florestania. Mas, infelizmente, não foi nada disso.
Lançando
mão do exemplo mais evidente e de simples constatação, tanto a política
florestal iniciada em 2001 quanto o Sistema Estadual de Áreas Naturais
Protegidas, considerados pilares para o Projeto Florestania, requeriam gestores
com perfil e competência para conseguir ampliar a pequena participação da
biodiversidade florestal na riqueza ou PIB acreano.
Finalmente,
experiências de gestão pública bem-sucedidas demonstram que a competência para
gerenciar e o domínio de especialidades em áreas prioritárias ao Projeto de
Governo, são condições essenciais para evitar o colapso.
Mesmo
que num primeiro momento o Projeto Florestania reuniu uma modesta, porém promissora
equipe, os resultados mostram que no andar da carroça o profissional qualificado
ou gestor ideal cedeu o lugar para o assessor pessoal e ao cabo eleitoral.
Sempre
fiel ao partido político e muito preocupado com a próxima eleição, o assessor
resguardava o futuro do político, sem se importar com o fracasso do Projeto
Florestania.
Mas
isso é outro artigo.
*Engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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