Fim do Florestania no Acre: Equipe técnica sem Capacidade de Governo
Atualizado pelo autor a partir do resultado da eleição municipal de 2024.
* Ecio Rodrigues
Capacidade
de Governo é um dos vértices do Triangulo de Governo, que somado ao Projeto de
Governo e à Governabilidade formam o tripé de sustentação de uma administração,
em um país, estado ou cidade, por um ou mais mandatos.
Para o
economista chileno Carlos Matus, mentor da teoria do Triangulo de Governo na
década de 1970, quando o tripé funciona, o Presidente, Governador ou Prefeito,
respectivamente, terá sucesso, quando não, fracassará.
Nesse
contexto, pesquisar os detalhes dos últimos 30 anos da história política do
Acre, tendo por referência a teoria do Triangulo de Governo, contribui na
compreensão das causas para que o período de transformação produtiva, observado,
sobretudo no início da década de 2000, desse lugar ao retorno do modelo de
ocupação produtiva baseado na pecuária extensiva.
Ocorre
que diante da subjetividade e generalização que contamina as declarações dos
líderes políticos, caberia à equipe técnica que foi incorporada ao conjunto do
funcionalismo público por meio de terceirização e nomeação para cargo de
gerenciamento, conduzir o desafio de viabilizar o Florestania.
Resumindo,
compor, com servidores públicos, cargos comissionados e profissionais
terceirizados uma equipe com competência e dedicação para colocar em prática o
Projeto de Governo demonstrou ser tarefa bem mais complexa do que se imagina.
A
experiência única do Projeto Florestania, vivenciada durante 20 anos pelos
acreanos (de 1999 a 2018), a despeito de seu estudo ter sido até hoje
negligenciado pelos historiadores, engenheiros florestais, economistas e
cientistas políticos, representa excelente fonte de análise ao mostrar com
clareza o momento inicial, do sucesso eleitoral em 1998, e o final, do fracasso
no pleito em 2018.
Fracasso
eleitoral que, por sinal, se repetiu, de forma um tanto constrangedora, nos
pleitos seguintes em 2020, 2022 e 2024.
Talvez
pela falta de objetividade em relação aos pressupostos do Projeto Florestania
(discutido no segundo artigo da série de 10), ou pela distorção entre a
narrativa pautada no acreanismo e não na economia (artigo terceiro), ou ainda
em decorrência do baixo convencimento dos envolvidos acerca da viabilidade de
longo prazo da saída pela floresta (artigo quarto), o fato é que os múltiplos
fracassos eleitorais confirmam a existência de uma rejeição perigosa e
impossível de ser contextualizada.
Seria
pouco inteligente buscar um ou vários culpados para assumir a responsabilidade
pela rejeição eleitoral, da mesma forma que não pode existir dúvidas acerca de
sua existência e, o mais grave, em um nível nunca antes observado entre os
políticos do Acre.
Parece
haver um oculto sentimento de traição em relação ao que a população foi levada
a imaginar, para o futuro do Acre, com o Projeto Florestania e o que foi
efetivamente entregue pelos líderes políticos que receberam, por muito tempo, a
confiança do eleitor.
No fim
das contas faltou discernimento aos prefeitos e governadores eleitos sob o
manto do Projeto Florestania, para entender que a estratégia de desenvolvimento
baseada na saída pela floresta, gestada por diversas organizações a partir do
final da década de 1980, dependia de três condições elementares para se
viabilizar.
A
primeira condição era o prazo de sedimentação do Florestania.
Com
ampliação paulatina e permanente da participação da biodiversidade florestal na
geração da riqueza estadual no longo prazo, quem sabe a partir de 2030 (prazo
estabelecido no Acordo de Paris), o Acre poderia alcançar o desmatamento zero mantendo
o crescimento do IDH.
De
maior impacto político a segunda condição diz respeito à negação da pecuária
extensiva.
Por
óbvio não significaria perseguir o pecuarista, pequeno ou grande, mas sim, em
instituir mecanismos para reduzir, ano após ano, o robusto subsídio do
orçamento do governo, recebido há mais de 30 anos pela criação do boi solto no
pasto.
O
prazo do desmatamento zero a ser alcançado em 2030 contribuiria para estimular
o processo de transição produtiva no Acre, em direção à estratégia de
desenvolvimento baseada na saída pela floresta.
Menos
complexa, a terceira condição se refere à reunião de profissionais de alto
nível e sem lealdade a qualquer partido político.
Convictos
e crentes de que o Florestania é a única estratégia de desenvolvimento possível
para a vocação natural do Acre, um conjunto de, no mínimo 40, especialistas nas
mais diversas formações deveria ser distribuído nos mais de 20 órgãos de
governo para executar, com alguma chance de sucesso, as ações de estímulo à
saída pela floresta.
Motivados
e, mais que tudo, peritos em suas respectivas especialidades os profissionais
seriam nomeados gestores em diversas áreas e submetidos a uma coordenação
institucional forte o suficiente para orientar a Capacidade de Governo em prol
dos objetivos do Projeto Florestania.
Contudo,
não há dúvida atualmente e a experiência comprovou que a operacionalização do Projeto
Florestania não dependia somente da capacidade dos técnicos que atuavam nos
órgãos públicos.
Sua
complexidade exigia suporte incondicional dos líderes políticos, de maneira a
adequar a expectativa que cada ator social e agente econômico cultivava em
relação, de um lado, aos custos e, de outro lado, aos benefícios eleitorais da
adoção do rumo estabelecido pelo Florestania.
Explicando
melhor.
Tendo
em vista que todo território acreano no primórdio da ocupação econômica se
encontrava 100% coberto por floresta, não precisa pensar muito para entender
que defender a pecuária extensiva, ou de qualquer outra opção produtiva para
substituir a floresta, também significa aceitar o inevitável desmatamento.
Como
todos estão cansados de saber, não há meias palavras, almoço grátis ou criação
de boi solto no pasto no Acre sem destruição da biodiversidade florestal.
Assim,
em que pese a omissão do Projeto Florestania em decidir por um ou outro
caminho, posto que, como afirmado antes, os líderes políticos adotaram por
regra abraçar a estratégia de desenvolvimento da saída pela floresta sem,
contudo, desapontar os pecuaristas, a Capacidade de Governo pendeu para um e
outro lado, conforme o pensamento majoritário em cada instituição e de cada
gestor.
À
deriva, sem orientação política superior os gestores e a equipe técnica
executavam tarefas à gandaia, às vezes sob demanda e com rumo ou estratégia
inteiramente desconhecida.
Entretanto
havia uma realidade objetiva, como gostam os sociólogos, que os envolvidos no
Florestania, de maneira discreta ou às claras sabiam ser crucial.
Afinal,
existe razoável consenso científico de que a exploração da biodiversidade
florestal superaria, no longo prazo, a estagnação econômica trazida pela estratégia
de desenvolvimento baseada na pecuária extensiva. Uma estagnação que se
arrastava desde a década de 1960 até o novo século, no período posterior ao ano
2000.
Em
síntese, ninguém poderia negar que foi a biodiversidade florestal, uma vocação
produtiva natural do Acre, que deu origem ao Projeto Florestania gestado por
organizações da sociedade civil e não a necessidade de se fazer o contraponto
ao agronegócio, com a baixíssima produtividade da pecuária extensiva, desde
então desacreditado.
Concluindo,
a condução de um processo técnico e político na dimensão exigida pelo Projeto
Florestania, demandaria contratar profissionais com qualificação e experiência
para conduzir a transição de uma economia baseada no boi solto no pasto, estagnada
há mais de 30 anos, para uma nova economia de baixo carbono e desmatamento zero
ancorada na biodiversidade florestal.
Todo
profissional envolvido com setor produtivo entende as dificuldades para
selecionar, treinar e fazer funcionar uma equipe de profissionais com
especializações diversas em uma indústria, num supermercado, numa escola e até
mesmo numa padaria.
Agora imaginem
conseguir reunir vários peritos, alguns estreantes no serviço público com o
propósito de, no curto prazo, consolidar uma Capacidade de Governo para atender
cobranças imediatas por educação e saúde, enquanto colocava em pratica um rol
de demandas novas, inventadas para viabilizar o Projeto Florestania.
Entretanto
e infelizmente, os líderes políticos se beneficiaram do bônus eleitoral disseminado
no imaginário do acreano pelo Florestania, sem nunca compreender, de fato, seu
significado.
Como
de resto, em 2018 a conta chegou e uma rejeição, que parece não ter fim no
longo prazo, colocou todos os políticos antes identificados, mesmo que numa
ínfima vinculação, com o Florestania em um canto escuro de um órgão público
qualquer com a carreira política tendendo à extinção.
Mas isso é outro artigo.
*Engenheiro
florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em
Desenvolvimento Sustentável (UnB).
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