Romantismo não salvará rio Acre
*
Ecio Rodrigues
Quando a vazão do rio Acre se reduz a
cifras alarmantes, com medições que chegam a 1,28 metro, não é preciso muito
esforço mental para concluir que abraçar o rio, cantar para o rio e coisas
desse tipo não ajudam na discussão para encontrar soluções.
Alarmar, por outro lado, a população,
diante da ameaça de racionamento no abastecimento d’água, insuflando um suposto
senso de responsabilidade em relação à necessidade de economizar água, como se
isso representasse até mesmo compromisso cívico ou patriótico, não ajuda na
discussão para encontrar soluções.
Carimbar com a denominação errada de
“educação ambiental” a participação de crianças em atividades como recolher
lixo e plantar mudinhas no barranco, motivadas por professores e patrocinadas
pelo poder público com o objetivo de ocupar os noticiários, não ajuda na
discussão para encontrar soluções.
Sob um extenso rol de condutas um
tanto ingênuas, um tanto absurdas e um tanto enganosas, as exaltações em favor
do rio não resolvem o problema, apenas criam distrações que ajudam a esquecer,
como dizem os mais velhos, quem deve colocar o guiso no gato.
O fato é que qualquer enaltecimento
romântico ao rio Acre soa, no mínimo, inoportuno em época de seca extrema,
quando a escassez de água e a redução da vazão pode significar uma tragédia
ambiental sem precedentes.
Mas incoerência e romantismo não se
repelem, e por isso, ao mesmo tempo em que fazem transbordar (com o perdão do
trocadilho) seu amor pelo rio Acre, os românticos não se importam em defender a
transformação do rio em “eclusas” – uma denominação duvidosa para o que na
verdade não passaria de barragens, tais como as das hidrelétricas, contudo
levantadas com o único fim de guardar água.
Vale nesse momento reforçar a
incoerência: românticos odeiam hidrelétricas.
De outra banda, se romantismo não
resolve, o que se deve fazer em contextos como o atual, quando ocorre uma
peculiar crise ecológica que por sua vez tem no desequilíbrio do ciclo
hidrológico de toda a bacia do rio Acre sua peça-chave?
Compreender e chegar a um consenso
quanto ao fato de que o problema reside nesse desequilíbrio e que, em hipótese
alguma, se resume à quantidade de água (para menos ou para mais) que corre no
leito do rio seria um bom começo.
Considerar a seca atual um fato
isolado é um erro grave. A alagação ocorrida em Brasiléia, Xapuri e Assis
Brasil no inverno de 2015, bem como a seca verificada nos igarapés, nos rios
tributários e assim por diante são ocorrências interdependentes, que reforçam a
tese do desequilíbrio hidrológico.
Românticos, como é de sua natureza,
vão apelar para os céus. Dirão que a culpa é dos fenômenos climáticos.
Românticos gostam de citar El Niño e La Niña e tudo o que evoque as estrelas.
Acertam ao remeter a responsabilidade pela seca aos céus, embora esqueçam um detalhe
que pode mudar o entendimento, da água para o vinho.
Acontece que eventos climáticos têm
seus impactos aumentados ou diminuídos, de acordo com o que encontram em cada
realidade, em cada região, em cada lugar. E isso ajuda a explicar muita coisa,
afinal o que vem do céu pode causar tragédia, mas só aqui, só no caso do Acre,
ou da Amazônia, vai depender de fatores como o tamanho do desmatamento.
O que fazer para estabilizar o ciclo
hidrológico da bacia hidrográfica do rio Acre é a pergunta certa a ser feita.
Contudo, quem vai colocar o guiso nesse gato?
*Professor
Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista
em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do
Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.
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