Em audiência pública no STF, especialista diz que a Ciência foi ignorada no novo Código Florestal
Ministro
do STF, Luiz Fux, disse que deve julgar as ações diretas de inconstitucionalidade
ainda neste semestre
Quatro
anos após ser aprovado, o novo Código Florestal enfrenta quatro ações diretas
de inconstitucionalidade (ADIs) ajuizadas no Supremo Tribunal Federal (SFT) que
questionam 58 artigos da Lei nº 12.651/2102, de um total de 84 artigos. Um dos
principais pontos discutidos na audiência realizada na sede da Corte, nesta
segunda-feira, 18, é o fato de que o Congresso Nacional ignorou as
recomendações da Ciência, que alertou sobre os retrocessos que a legislação
traria para a conservação da biodiversidade do País, apesar de mais de 200
audiências públicas realizadas sobre o tema.
A
audiência pública desta segunda-feira foi realizada pelo ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, relator de quatro ADIs que, segundo disse,
questionam praticamente todo o novo Código Florestal. Do total, três foram
ajuizadas pela Procuradoria Geral da República (PGR) e uma pelo Partido
Socialismo e Liberdade (PSOL).
O
ministro Fux disse que o STF cumprirá os ritos das ações. “Marcaremos uma pauta
de urgência dentro de dois meses, ainda neste semestre, para julgar a causa”,
disse.
O
debate reuniu 22 palestrantes, entre cientistas que participaram do grupo de
trabalho do Código Florestal da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC) para contribuir com
propostas para elaboração da legislação; ambientalistas, representantes do
agronegócio e o ex-relator da comissão especial da Câmara que tratou da
matéria, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual ministro da Defesa.
Contudo,
a SBPC não foi convocada para a audiência. Há duas semanas, no dia 4 abril, a
Sociedade encaminhou uma carta ao ministro do STF protestando contra a não
inclusão de um representante da entidade na audiência do dia 18 de abril. Em
2010, a Sociedade constituiu um grupo de trabalho para reunir contribuições à
nova lei, que foram entregues ao Congresso em 2011.
As
principais críticas dos cientistas e ambientalistas são sobre a redução de
proteção de áreas de preservação permanente (APPs), principalmente em torno de
rios e nascentes; e a redução de proteção das áreas de reserva legal. Por outro
lado, o setor produtivo do agronegócio alegou que a eventual
inconstitucionalidade do novo Código Florestal inviabilizaria as atividades
econômicas para a agricultura e pecuária do Brasil, com impactos negativos nas
metas internacionais da segurança alimentar.
Alertas
da Ciência
O
cientista Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa), um dos relatores do trabalho sobre o Código Florestal, disse que as
ADIs são embasadas no trabalho patrocinado pela SBPC e ABC. Durante o debate do
novo Código Florestal, a SBPC teve um papel relevante sobre proposições para o
avanço da legislação.
“As
ADIs têm repetidas menções aos documentos produzidos pela SBPC e ABC. A ciência
brasileira, nas suas melhores instituições, foi ignorada pelo Congresso
Nacional. Tudo foi feito com base em apenas um relatório técnico e nós havíamos
apresentado mais de 300 estudos de revisão”, disse.
Na
leitura do cientista, se as análises científicas tivessem sido contempladas no
novo Código Florestal, neste momento, não estariam se discutindo as ADIs, mas
certamente estaria se discutindo pontos para novos avanços da legislação.
Desmatamento
volta a crescer com Código Florestal
Segundo
ele, o desmatamento voltou a crescer intensamente a partir de 2012, exatamente
com a implementação da nova legislação. No Mato Grosso, por exemplo, as taxas
têm dobrado, exatamente na região que recebe umidade da Floresta Amazônia. Ele
apresentou as peculiaridades do fluxo atmosférico de umidade do eixo norte ao
sul do País e disse que a eliminação de áreas de vegetação nativa está
prejudicando as chuvas, com impactos hídricos na região Sudeste, por exemplo.
“As
florestas geram o clima amigo e o desmatamento quebra a bomba d´agua e leva ao
clima inóspito”, disse. Ele destacou que, no Nordeste, o processo de
desertificação vem se ampliando.
Nobre
disse ainda que o desmatamento vem crescendo, inclusive, em plena recessão da
atividade econômica. “A leitura que faço sobre isso, da perspectiva objetiva e
científica, é que o desmatamento está aumentando porque a Lei Florestal liberou
muitos aspectos da psicologia do desmatamento”, disse.
Já
o deputado Aldo Rebelo, relator do primeiro relatório na comissão especial
sobre o Código Florestal, discorreu sobre os debates com várias instâncias
sobre a legislação, quando mais de 200 audiências públicas foram realizadas e
disse que se chegou “ao equilíbrio” possível.
“Em
nenhum momento na história do Brasil e em nenhuma legislação o Congresso
mergulhou em águas tão profundas para ouvir a sociedade, os agricultores –
pequenos, médios e grandes – e em ouvir as organizações de gestão dos Estados,
municípios e da União; e em ouvir também a universidade, a academia, e aqueles
que são diretamente atingidos por essa situação”, disse. “Conseguimos
identificar quais eram os elementos decisivos para que essa situação fosse
resolvida com equilíbrio”, complementou.
Rebelo
considerou o novo Código Florestal a maior reforma microeconômica que o Brasil
conheceu nos últimos anos, por trazer segurança jurídica e organizar produção
da agricultura e pecuária. Segundo ele, o governo está unificado sobre os
avanços do Código.
Outras
menções à SBPC
Rebelo
citou ainda o diálogo que houve com a SBPC. “Hoje mesmo falei com a presidente
da SBPC (Helena Nader), que não conseguiu aqui prestar o seu depoimento, mas
também avalia que esse Código é um avanço importante para a legislação ambiental
e florestal do Brasil.”
Na
audiência pública, a SBPC foi citada por três palestrantes. A especialista em
biodiversidade, a bióloga Nurit Bensusan, assessora do Instituto Socioambiental
(ISA), discordou do ministro Aldo Rebelo e disse que, ao contrário do que
disse, a SBPC produziu estudos mostrando os retrocessos que o Novo Código
Florestal traria à biodiversidade brasileira.
“Qual
o sentido de se manter no Código Florestal os dispositivos que minam a função
ambiental das florestas e colocam em xeque o meio ambiente equilibrado, os
direitos de todos os brasileiros e trazem riscos as atividades econômicas que
dependem do meio ambiente?”, questionou a especialista.
Em
novembro de 2015 a SBPC havia encaminhado carta ao ministro Luiz Fux, sobre os
retrocessos do novo Código Florestal e lembrando que, durante o processo de
formulação da lei, a SBPC e ABC apresentaram contribuições críticas ao debate,
com “fundamentações científicas, tecnológicas, econômicas, sociais e ambientais
sólidas que poderiam ter sido usadas para se construir um Código Florestal mais
inovador e atual, o que lamentavelmente não aconteceu”.
Esclarecimentos
da Procuradoria Geral da República
No
fim da audiência, o ministro Luiz Fux disse que as ações questionam
praticamente todo o Código Florestal. Ele disse que o debate trouxe vários
argumentos sobre os quais o STF não tinha conhecimentos. “Uma coisa é discutir
a questão jurídica, outra é discutir questões relativas ao meio ambiente, com
base científica de segmentos especializados. Ouvimos aqui problemas
relacionados ao impacto ambiental, à produção de alimentos, ao desmatamento,
multas, desproteção do pequeno agricultor”.
A
procuradora Sandra Verônica Cureau, da Procuradoria-Geral da República, que
ajuizou três ações, acompanhou a audiência do lado da plateia, e disse que o
Código Florestal representa um retrocesso para proteção e conservação do meio
ambiente. “As três ADIs que ajuizei quando estava no exercício do cargo de
procurador geral da República questionam a anistia concedida aos que desmataram
antes de 2008, questionam a redução da proteção às áreas de preservação
permanente, e questionam a redução de proteção das áreas de reserva legal”,
disse.
Ela
disse que 58 dos artigos do novo Código Florestal (de um total de mais de 60
artigos) são questionados, razão pela qual ajuizou três ações, porque seria
muito difícil fazer em uma única ação tantos questionamentos e tantas
impugnações com violação ao meio ambiente.
Por
Viviane Monteiro, Jornal da Ciência / SBPC.
in
EcoDebate, 20/04/2016
Disponível em: <https://www.ecodebate.com.br/2016/04/20/em-audiencia-publica-no-stf-especialista-diz-que-a-ciencia-foi-ignorada-no-novo-codigo-florestal/>

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