Então, Florestania foi só retórica mesmo?

 * Ecio Rodrigues

Em caso afirmativo funcionou, posto que por todo tempo em que a retórica foi repetida à exaustão comoveu a sociedade despertando emoção e lógica, tudo bem de acordo com o manual de discurso político e o receituário que promete o paraíso com único propósito de vencer eleições.

Em caso negativo deu tudo errado!

Se fosse para ser de verdade, pouco se fez para alterar a realidade e os defensores do Projeto Florestania não entenderam que, antes deles, um conjunto expressivo de pesquisadores, técnicos e engenheiros haviam exposto os riscos e limites do modelo de desenvolvimento baseado na pecuária extensiva.

Na constrangedora e de certa maneira merecida derrocada eleitoral ocorrida em 2018 restou claro aos poucos abnegados que ainda se mantinham fiéis aos ideais do modelo de desenvolvimento sintetizado na expressão Saída pela Floresta que as lideranças políticas, todos que por sinal receberam expressivas votações nos vinte anos anteriores, tinham, de concreto, determinação de sobra para ganhar eleição e era só isso mesmo.

Resumindo os líderes políticos, repetindo todos eleitos sob o manto do Florestania, mostraram pouca ou nenhuma convicção sobre três diretrizes elementares e que são condicionantes para compreender a realidade do estágio atual da pecuária extensiva que pode determinar um futuro com limitados atalhos e pouquíssima margem de erro.

A triste conclusão é que há um caminho bem estreito para entender a realidade da economia para melhorar ou não a vida de todos no Acre.

A primeira das três diretrizes, que escapou ao entendimento dos líderes políticos do Florestania, tem a ver com reconhecer, aceitar e compreender que existe uma necessidade urgente do modelo de desenvolvimento no Acre baseado na pecuária extensiva ser repaginado, ou melhor, substituído.

Razões não faltam e muitos pensadores, desde o final do século passado, elaboraram uma série de dissertações de mestrado e teses de doutorado comprovando a impossibilidade real da criação de boi solto no pasto prover e manter a quantidade e a qualidade do emprego e da renda requerida pela sociedade.

Nunca é demais lembrar que mesmo em 2018, até antes ainda em 2014, sob o novo discurso mágico de que o Acre precisava se industrializar residia o abandono de qualquer princípio do modelo defendido pelo Florestania.

Fato interessante, por exemplo, foi o esforço realizado ainda em 2009 para erradicar a criação de galinha caipira, em toda região do Baixo e Alto Rio Acre, de modo a não comprometer ou levar doença para as granjas da indústria de aves congeladas. Algo muito distante dos ideais do Florestania.

Já a segunda diretriz diz respeito à reduzida competitividade do agronegócio do Acre. Evidente que a localização geográfica e as condições agronômicas limitam a produtividade no Acre em comparação com o restante do país, inclusive e até mesmo com o vizinho Rondônia.

Finalmente a terceira diretriz se baseia na história econômica e produtiva do Acre, que tem na biodiversidade florestal, da borracha à madeira, sua mais importante e principal referencia.

Resumindo, sem líderes políticos e intelectuais o modelo da Saída pela Floresta no geral e o finado Projeto Florestania em particular, não deixou seguidores, exceto por poucos órfãos que se encontram entregues à própria sorte.

Fazendo o que fazem de melhor, os órfãos do modelo de desenvolvimento do Acre baseado na Saída pela Floresta e do Florestania vez ou outra escrevem algum desabafo para tentar convencer algum desavisado do que deveria ser óbvio.

Nosso destino está entregue ao desenrolar de uma atividade produtiva que emprega poucas pessoas, enfrenta competição impossível de ser vencida com tudo que é canto desse país e, o pior, depende todos os anos de ampliar um pouco mais o desmatamento.

A pergunta é simples, quanto desmatamento será tolerado para manter o desenvolvimento da pecuária extensiva? Mas, isso é outra retórica!

 

*Engenheiro Florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

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